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maio 16, 2013 by
Luciana Mastrorosa

Estrada em Mendoza, Argentina. Foto: Luciana Mastrorosa
“(…) living out of sight of any shore does rich and powerfully strange things to humans.”
(M.F.K. Fisher, em The Gastronomical Me)
M.F.K. Fisher, autora norte-americana das mais famosas, e uma das favoritas desta casa no quesito food writing, fez reflexões muito acuradas em seus livros do quanto as viagens mexem conosco. Ela chamou a esse sentimento, e as ações que derivam dele, de “sea change” – em sua época, viagens longas, como da América para a Europa, eram feitas de navio, o que justifica o nome. Em vários capítulos de seu The Gastronomical Me, uma de suas obras mais pessoais, há diversas menções a isso. Derivando para os tempos modernos, e tendo passado a vida ultimamente entre aeroportos, me identifico com o sentimento. “Sea change”. Viajar exaure e modifica.
Especialmente, as viagens que envolvem vinhos e gastronomia. São maravilhosas, sempre. Jantares, almoços, restaurantes, vinícolas, gente de todo mundo se encontrando para comer, beber, perguntar, provar, desapegar-se das situações de sempre para colocar à prova todos os sentidos. Não é necessariamente um exagero, embora seja. Afinal, bebe-se e come-se o tempo todo, mas, inexplicavelmente, sem perder o controle – afinal, é trabalho. E, mesmo se não fosse, quem gosta de perder o controle diante de tantas coisas novas para ver, sentir, observar, tocar, cheirar? Viajar desse jeito é incrível, sim, mas promove mudanças profundas dentro da gente. Sempre que volto de uma aventura dessas, me sinto impregnada, como se meu corpo fosse uma esponja cheia de gotículas, fragmentos de gentes, de coisas, comidas, bebidas, taças, impressões trocadas, sensações.
Demoro um tempo para me sentir em casa novamente. Dentro do táxi, no caminho do aeroporto até meu diminuto apartamento, sempre se passa a mesma coisa: observo as ruas de sempre, sinto o cheiro de sempre, vejo as mesmas cores, estou lá, mas é como se não estivesse. Ao chegar em casa, a mesma sensação me invade – estou, mas ainda não. Ainda não. Édouard Levé, fotógrafo e escritor francês, em um de seus textos mais inspirados, descreveu bem essa sensação. “When I am returning from a trip, the best part is not going through the airport or getting home, but the taxi ride in between: you’re still traveling, but not really.” Aliás, recomendo a leitura do texto completo, publicado na Paris Review e disponível na íntegra neste link aqui. Só o nome já é uma delícia: “When I look at a strawberry I think of a tongue.”
Depois de alguns dias, como alguém que passa muito tempo vivendo no mar, e volta para casa ainda sentindo o universo rodar ligeiramente, essa energia estranha se dissipa, deixando espaço para que as memórias da viagem voltem e ocupem seus devidos lugares. É nesse momento que dá a saudade de conversar com as amizades recém-feitas, de cozinhar com aqueles temperos acondicionados cuidadosamente entre meias e sapatos, de abrir o vinho que lembra aquele jantar especial, com aquela visão incrível dos Andes monstruosos, de rever as fotos de momentos bobos e mágicos partilhados entre ex-estranhos. Quase amigos.
Estive recentemente em dois lugares diferentes, sempre a trabalho: Mendoza, na Argentina, e Las Vegas, nos Estados Unidos. Ambos desertos, ambos palcos de festivais gastronômicos fartos em comidas e bebidas. Detalhe: com apenas dois dias de diferença entre uma e outra viagem. Nunca senti tão profundamente o meu “sea change” quanto agora. Ainda estou impregnada de tantas sensações, palavras em outras línguas, sabores exóticos e agradáveis ao meu paladar. Tento me espremer na rotina para voltar à realidade e dar conta de todos os afazeres que acompanham essas longas viagens. Afinal, não basta viajar: é preciso escrever tudo depois. É a nossa âncora.
Para ajudar na passagem, voltei para a cozinha, onde me sinto bem. A vontade de cozinhar é um dos sinais de que o sea change está indo embora. Passei no mercado, comprei itens essenciais e fiz a coisa mais simples: caldo de frango com legumes, frango assado com mostarda e batatinhas. Reconfortante, essencial, como tem de ser – para trazer de volta aquela familiaridade dos dias, aquele aconchego delicado, quase como um abraço.
CALDO DE FRANGO CLARINHO COM LEGUMES
6 porções fartas
1 peito de frango com osso e pele
4 cenouras descascadas e cortadas em cubinhos
1 lata de milho verde – ou ainda melhor, 1 pacote de milho verde congelado
1 alho-poró inteiro, bem lavado, em rodelas
1 cebola picadinha
2 dentes de alho picadinhos
Azeite, sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto
Salsinha picada a gosto
2 folhas de louro
Gotas de azeite de merkén (merkén é uma especiaria chilena, típica dos mapuches, feita com pimenta defumada e seca, sementes de cominho e de coentro maceradas e sal)
Água quanto baste
Lave bem o peito de frango, seque e tempere com azeite de merkén e sal. Aqueça um pouco de azeite de oliva numa panela grande e doure o peito de frango inteiro, com a pele virada para baixo. Quando estiver dourada, vire-o e deixe dourar do outro lado. Cubra-o com água quente e acrescente as cenouras, a cebola, o alho-poró, o alho e as folhas de louro. Tempere com um pouco de sal e pimenta e deixe ferver. Abaixe o fogo para o mínimo e cozinhe até o frango ficar macio, escumando as impurezas que subirem. Retire-o do caldo, deixe esfriar e desfie-o – descarte a pele e os ossos. Volte a carne desfiada para o caldo, corrija o sal e a pimenta e acrescente o milho verde escorrido. Se a cenoura já estiver macia, acrescente a salsa e sirva. Fica ótimo com torradas esfregadas com alho fresco, gotas de azeite e sal marinho. Se preferir uma sopa mais magra, retire a pele antes do preparo – ou deixe o caldo esfriar e remova a gordura que subir à superfície.
FRANGO ASSADO COM MOSTARDA E BATATINHAS
4 porções fartas
4 sobrecoxas e 5 coxas de frango, com ou sem pele (usei com)
3 colheres (sopa) de mostarda de Dijon com estragão
1/2 cebola picada
6 dentes de alho inteiros, com casca
Suco de 1 limão caipira
1 quilo de batatinhas tamanho míni, com casca, partidas ao meio
3 cenouras sem casca, em tiras
3 folhas de louro
Sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto
Azeite a gosto
Tempere o frango com sal, suco de limão e pimenta. Acrescente a mostarda e deixe marinar por 30 minutos, no mínimo. Enquanto isso, prepare os legumes. Unte uma forma grande com azeite e disponha os pedaços de frango com toda a marinada. Acrescente as batatinhas, as cenouras, os dentes de alho e as folhas de louro. Polvilhe com mais sal e pimenta, 1 fio de azeite, e leve para assar em forno alto por 40 minutos, até a pele dourar. Retire do forno, regue com o suco que se formou na assadeira e cubra com papel-alumínio (ou papel-manteiga). Abaixe o fogo para médio e asse por mais 30 a 40 minutos, para cozinhar bem, regando a carne de vez em quando durante esse período. Descubra a assadeira e finalize por mais 15 minutos, ou até dourar.