Receitas, culinária e gastronomia, por Luciana Mastrorosa

Guloseima


Aula de cozinha para principiantes 0

Posted on maio 29, 2013 by Luciana Mastrorosa
Cozinhar, comer, escrever e depois fazer tudo de novo até o infinito. Foto: Luciana Mastrorosa

Cozinhar, comer, escrever e depois fazer tudo de novo até o infinito. Foto: Luciana Mastrorosa

Este ano, o Guloseima completou, em abril, sete anos de existência. Sete, o número cabalístico, das notas musicais às cores do arco-íris. Sete, o número da sorte. Daí que, nessa quase uma década de vida, um monte de coisa aconteceu por aqui. Não precisava lembrar, mas eu vou lembrar, porque acho que faz parte.

O Guloseima foi minha primeira tentativa concreta de escrever sobre gastronomia, sobre os sabores que eu provava, aromas que sentia, e que precisava passar para o papel – mimetizado na tela em branco do computador. E daí para as muitas telas, em branco ou coloridas, de notebooks, smartphones, tablets e todos esses acessórios que a gente usa com tanta naturalidade que nem parece que, ainda ontem, nos aboletávamos no sofá com um telefone pesadíssimo no colo, rodando os números num disco sobre o aparelho…

Parece que foi ontem, mas já faz tempo. E, de lá para cá, desde que tudo começou aqui neste blog, escrevi para muitas revistas e sites, dei aulas de jornalismo gastronômico, publiquei um livro de receitas, cozinhei para os amigos, estudei, estudei, degustei, degustei, e sigo escrevendo. Profissionalmente e por gosto, e isso se confunde tantas vezes que basta dizer que adoro o que faço na Prazeres da Mesa, assim como adoro o que faço aqui, neste espaço que é só meu.

E foi justamente este espaço que me ajudou a derivar meu amor eterno pela gastronomia para outros patamares: comecei a dar aulas de cozinha. “Aula de cozinha para principiantes”, assim batizei meu curso, que tem o objetivo simples de ajudar as pessoas a cozinhar para viver melhor. Por que isso? Porque, para mim, cozinhar é tão natural, e me faz tão bem, que sofro ao ver amigos se digladiando com as panelas. Especialmente agora, em que tantos conhecidos e amigos estão tendo filhos e, por consequência, deparando-se com a inevitável realidade: quem vai cozinhar para os pequenos?

Não vou, aqui, entrar em debate sobre o poder do dinheiro e suas vantagens, do tipo: “ah, coloca na escolinha A, B ou C, que inclui almoço”; “ah, paga uma babá que cozinhe”, “ah, ZZzzzzz”. Isso eu deixo para cada um escolher, de acordo com sua situação econômica. O meu objetivo é outro: é fazer você, querido leitor, descobrir que é possível cozinhar receitas simples e deliciosas naquela cozinha diminuta do seu apartamento. Enquanto não tiver um espaço para acomodar vários alunos numa mesma sala, opto por dar aulas particulares na casa do aluno, em módulos, de acordo com o interesse de cada um. Mais personalizado, impossível. Pense numa aula divertida, na sua cozinha, com os seus utensílios e ingredientes, almoço pronto no final de tudo? Muito legal.

Mês passado foi minha primeira experiência e fiquei cheia de orgulho ao ver as duas primeiras alunas com brilho nos olhos de descobrir a maneira correta de segurar a faca, de observar pequenos truques para temperar a rotina, as panelas de todo dia.

Agora, entre um compromisso e outro, uma pauta e outra, dou aulas de cozinha para principiantes. Garanto que o preço é justo. Aos interessados, ficarei felicíssima de receber seus e-mails de contato em guloseimacom (arroba) gmail (ponto) com. Se preferir, entre em contato comigo nos comentários do blog ou na nossa fanpage no Facebook: http://www.facebook.com/GuloseimaBlog

E bora lá fazer aquela sopa deliciosa de abóbora, um risotinho para estas noites frias ou esta perdição para a sobremesa: shortbread de caramelo e chocolate.

Sea change, ou a vida entre viagens 2

Posted on maio 16, 2013 by Luciana Mastrorosa
Estrada em Mendoza, Argentina. Foto: Luciana Mastrorosa

Estrada em Mendoza, Argentina. Foto: Luciana Mastrorosa

“(…) living out of sight of any shore does rich and powerfully strange things to humans.”
(M.F.K. Fisher, em The Gastronomical Me)

M.F.K. Fisher, autora norte-americana das mais famosas, e uma das favoritas desta casa no quesito food writing, fez reflexões muito acuradas em seus livros do quanto as viagens mexem conosco. Ela chamou a esse sentimento, e as ações que derivam dele, de “sea change” – em sua época, viagens longas, como da América para a Europa, eram feitas de navio, o que justifica o nome. Em vários capítulos de seu The Gastronomical Me, uma de suas obras mais pessoais, há diversas menções a isso. Derivando para os tempos modernos, e tendo passado a vida ultimamente entre aeroportos, me identifico com o sentimento. “Sea change”. Viajar exaure e modifica.

Especialmente, as viagens que envolvem vinhos e gastronomia. São maravilhosas, sempre. Jantares, almoços, restaurantes, vinícolas, gente de todo mundo se encontrando para comer, beber, perguntar, provar, desapegar-se das situações de sempre para colocar à prova todos os sentidos. Não é necessariamente um exagero, embora seja. Afinal, bebe-se e come-se o tempo todo, mas, inexplicavelmente, sem perder o controle – afinal, é trabalho. E, mesmo se não fosse, quem gosta de perder o controle diante de tantas coisas novas para ver, sentir, observar, tocar, cheirar? Viajar desse jeito é incrível, sim, mas promove mudanças profundas dentro da gente. Sempre que volto de uma aventura dessas, me sinto impregnada, como se meu corpo fosse uma esponja cheia de gotículas, fragmentos de gentes, de coisas, comidas, bebidas, taças, impressões trocadas, sensações.

Demoro um tempo para me sentir em casa novamente. Dentro do táxi, no caminho do aeroporto até meu diminuto apartamento, sempre se passa a mesma coisa: observo as ruas de sempre, sinto o cheiro de sempre, vejo as mesmas cores, estou lá, mas é como se não estivesse. Ao chegar em casa, a mesma sensação me invade – estou, mas ainda não. Ainda não. Édouard Levé, fotógrafo e escritor francês, em um de seus textos mais inspirados, descreveu bem essa sensação. “When I am returning from a trip, the best part is not going through the airport or getting home, but the taxi ride in between: you’re still traveling, but not really.” Aliás, recomendo a leitura do texto completo, publicado na Paris Review e disponível na íntegra neste link aqui. Só o nome já é uma delícia: “When I look at a strawberry I think of a tongue.”

Depois de alguns dias, como alguém que passa muito tempo vivendo no mar, e volta para casa ainda sentindo o universo rodar ligeiramente, essa energia estranha se dissipa, deixando espaço para que as memórias da viagem voltem e ocupem seus devidos lugares. É nesse momento que dá a saudade de conversar com as amizades recém-feitas, de cozinhar com aqueles temperos acondicionados cuidadosamente entre meias e sapatos, de abrir o vinho que lembra aquele jantar especial, com aquela visão incrível dos Andes monstruosos, de rever as fotos de momentos bobos e mágicos partilhados entre ex-estranhos. Quase amigos.

Estive recentemente em dois lugares diferentes, sempre a trabalho: Mendoza, na Argentina, e Las Vegas, nos Estados Unidos. Ambos desertos, ambos palcos de festivais gastronômicos fartos em comidas e bebidas. Detalhe: com apenas dois dias de diferença entre uma e outra viagem. Nunca senti tão profundamente o meu “sea change” quanto agora. Ainda estou impregnada de tantas sensações, palavras em outras línguas, sabores exóticos e agradáveis ao meu paladar. Tento me espremer na rotina para voltar à realidade e dar conta de todos os afazeres que acompanham essas longas viagens. Afinal, não basta viajar: é preciso escrever tudo depois. É a nossa âncora.

Para ajudar na passagem, voltei para a cozinha, onde me sinto bem. A vontade de cozinhar é um dos sinais de que o sea change está indo embora. Passei no mercado, comprei itens essenciais e fiz a coisa mais simples: caldo de frango com legumes, frango assado com mostarda e batatinhas. Reconfortante, essencial, como tem de ser – para trazer de volta aquela familiaridade dos dias, aquele aconchego delicado, quase como um abraço.

CALDO DE FRANGO CLARINHO COM LEGUMES
6 porções fartas

1 peito de frango com osso e pele
4 cenouras descascadas e cortadas em cubinhos
1 lata de milho verde – ou ainda melhor, 1 pacote de milho verde congelado
1 alho-poró inteiro, bem lavado, em rodelas
1 cebola picadinha
2 dentes de alho picadinhos
Azeite, sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto
Salsinha picada a gosto
2 folhas de louro
Gotas de azeite de merkén (merkén é uma especiaria chilena, típica dos mapuches, feita com pimenta defumada e seca, sementes de cominho e de coentro maceradas e sal)
Água quanto baste

Lave bem o peito de frango, seque e tempere com azeite de merkén e sal. Aqueça um pouco de azeite de oliva numa panela grande e doure o peito de frango inteiro, com a pele virada para baixo. Quando estiver dourada, vire-o e deixe dourar do outro lado. Cubra-o com água quente e acrescente as cenouras, a cebola, o alho-poró, o alho e as folhas de louro. Tempere com um pouco de sal e pimenta e deixe ferver. Abaixe o fogo para o mínimo e cozinhe até o frango ficar macio, escumando as impurezas que subirem. Retire-o do caldo, deixe esfriar e desfie-o – descarte a pele e os ossos. Volte a carne desfiada para o caldo, corrija o sal e a pimenta e acrescente o milho verde escorrido. Se a cenoura já estiver macia, acrescente a salsa e sirva. Fica ótimo com torradas esfregadas com alho fresco, gotas de azeite e sal marinho. Se preferir uma sopa mais magra, retire a pele antes do preparo – ou deixe o caldo esfriar e remova a gordura que subir à superfície.

FRANGO ASSADO COM MOSTARDA E BATATINHAS
4 porções fartas

4 sobrecoxas e 5 coxas de frango, com ou sem pele (usei com)
3 colheres (sopa) de mostarda de Dijon com estragão
1/2 cebola picada
6 dentes de alho inteiros, com casca
Suco de 1 limão caipira
1 quilo de batatinhas tamanho míni, com casca, partidas ao meio
3 cenouras sem casca, em tiras
3 folhas de louro
Sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto
Azeite a gosto

Tempere o frango com sal, suco de limão e pimenta. Acrescente a mostarda e deixe marinar por 30 minutos, no mínimo. Enquanto isso, prepare os legumes. Unte uma forma grande com azeite e disponha os pedaços de frango com toda a marinada. Acrescente as batatinhas, as cenouras, os dentes de alho e as folhas de louro. Polvilhe com mais sal e pimenta, 1 fio de azeite, e leve para assar em forno alto por 40 minutos, até a pele dourar. Retire do forno, regue com o suco que se formou na assadeira e cubra com papel-alumínio (ou papel-manteiga). Abaixe o fogo para médio e asse por mais 30 a 40 minutos, para cozinhar bem, regando a carne de vez em quando durante esse período. Descubra a assadeira e finalize por mais 15 minutos, ou até dourar.

Feliz 2013! 2

Posted on janeiro 06, 2013 by Luciana Mastrorosa

2012 foi um ano intenso. Sei que não só para mim, mas para muitos. Trabalho, cansaço, stress, aquela coisa toda que pode tirar (e tira) nosso humor, mas também pode acrescentar mais vida e cor aos nossos dias.

Começo 2013 com um pão e os melhores votos para que, neste ano, a gente tenha coragem de fazer o que é necessário, sem fraquejar. Que o amor, os amigos, a família, as pequenas alegrias sejam abundantes e cotidianas. Que não falte trabalho, e que ele seja sempre feliz, satisfatório, um trabalho que reflita nossos sonhos e desejos realizados.

Este pão rústico encontrei na internet – mais precisamente aqui. É demorado, mas nem tanto. O que precisa é de paciência e uma certa dose de dedicação para que saia lindo e quente do forno, quase saltando da panela de ferro para a mesa.

É um pão que não necessita de sova: basta misturar os ingredientes certos – água, farinha, fermento, sal – e deixar que o milagre da multiplicação das leveduras aconteça. Depois de 12 horas, a massa estará boa para ser levada ao forno quente, 230 graus Celsius, dentro de uma panela resistente, de ferro, com tampa.

Com menos de uma hora de forno, pimba! Lá está o pão, pronto para esfriar e ser devorado com manteiga, azeite, ervas, um tico de sal, com toda a simplicidade que você puder imaginar.

Uma receita tão prosaica, rústica até, simboliza aquilo que desejo para o Ano Novo: que seja pleno de construção, menos pensamento e mais ação, mais vida acontecendo como deve ser: quase como num passe de mágica. Porque sem uma dose de magia, o cotidiano fica chato e sem graça.

Mas antes, um agradecimento a todos aqueles que fizeram de 2012 um ano mais doce. Obrigada por tudo, sempre!

Pode vir, 2013, estou preparada! :)

PÃO RÚSTICO, SEM SOVA

3 xícaras (chá) de farinha de trigo orgânica (ou específica para pão)
1 3/4 colher (chá) de sal (usei o rosa do Himalaia, mas pode ser qualquer um)
1/2 colher (chá) de fermento biológico seco
1 1/2 xícara (chá) de água

Para fazer o pão, é simples: comece misturando os ingredientes secos e, em seguida, adicione a água. Misture bem até obter uma massa mole: não precisa colocar mais farinha (talvez mais um tiquinho de água, se a massa ficar muito seca). Então, coloque a massa num recipiente grande e cubra com filme plástico. Deixe descansar por 12 a 18 horas. Após esse descanso, transfira a massa (mole, melequenta e cheia de bolhas) para uma superfície com bastante farinha. Forme uma bola e cubra com o mesmo filme plástico. Enquanto isso, aqueça o forno a 230 graus C e coloque dentro a panela de ferro, com tampa. Após esse período, coloque a bola de massa dentro da panela quente (cuidado, ela estará PELANDO de tão quente), tampe e leve ao forno por 30 minutos. Depois dessa meia hora assando, retire a tampa da panela e deixe assar por mais 15 minutos ou até que a crosta fique dourada.

Quando o seu pão estiver lindo, cheiroso e dourado, retire-o do forno, tire-o da panela quente e transfira-o para uma grade, para deixá-lo esfriar. Depois de frio, corte em fatias e coma com o que tiver à mão. Pode ser até puro!

Simplicidade 0

Posted on outubro 14, 2012 by Luciana Mastrorosa

Para curar o cansaço da alma, comida simples: pão, peixe, queijo, legumes. E vinho.

Eu falo de comida o tempo todo, gosto de comer, escrevo sobre isso e me considero afortunada por poder passar 24 horas por dia, literalmente, me dedicando ao assunto. E o Guloseima, claro, faz parte desse espaço que eu venho construindo, passo a passo, desde que tomei a sábia decisão de trabalhar exclusivamente com gastronomia – jornalismo e literatura incluídos nesse panteão.

Mas acontece que a gente vai engatando uma coisa na outra e a correria é tão imensa que às vezes a gente esquece do essencial, da simplicidade da coisa. Eis que hoje, finalmente, faço o que gosto em termos de profissão, mas tenho estranhamente me sentido fatigada, vazia mesmo, sem nada o que dizer a respeito daquilo que mais amo: comida. É como o Héctor Abad escreveu em seu lindo Livro de receitas para mulheres tristes, publicado pela Cia das Letras: “Só os bons poetas nos curam do fastio de palavras. Só a comida simples e essencial nos cura da saturação da gula.”

Simplicidade. Quando a mente cansa dos rituais, quando o corpo pede uma pausa, meu conforto está no silêncio, na paz, no simples. Mesmo com essa consciência, me deparei ocupando os pensamentos e o coração com questionamentos do tipo “O que posso fazer hoje para me divertir? Como posso descansar a mente tão fatigada?”, num dos poucos fins de semana em que não tinha compromissos a cumprir, ninguém doente (thank God) e nada pedindo minha presença, julgamento ou decisão urgentes. Alívio pelo tempo livre, susto por não saber como ocupá-lo.

Decidi ir ao cinema, paixão das antigas. Fui cedo, mas São Paulo sempre me surpreende: sessões estavam lotadas. Com fome e absolutamente enfastiada com as multidões que caminhavam na Paulista, afluíam aos cinemas e se debatiam em filas para comer nos cafés e restaurantes, abracei a simplicidade: queria voltar para casa, e rápido, para comer a minha comida, feita por mim e para mim.

Primeiro, brigadeiros: uma caixinha com quatro unidades, nos sabores tradicional, amargo, pistache e doce de leite. Depois, mercado: salmão defumado, queijo feta, e baguete estalando de tão fresca na padaria fofa que abriu aqui do lado.

Que sensação deliciosa voltar para casa! Sacola de compras, pão debaixo do braço, meu bairro me abraçando com seus mercadinhos, as pessoas felizes nos botecos, o céu cinza que convidava a ficar no sofá.

Assim improvisei meu almoço, um sanduíche simples acompanhado de uma taça de vinho. Saladinha de alface-catalônia orgânica, limão siciliano, sal, pimenta, queijo feita, azeitonas, tomatinhos. Uma versão da sempre benvinda salada grega. No pão, um ovo poché perfeito, cozido na água com vinagre de sidra, mais azeite, salmão defumado, gotinhas de limão e a pimenta moída na hora.

À taça de vinho, seguiu-se o espresso com os brigadeiros artesanais. E uma tarde de sábado simples, um pouco introspectiva, talvez, mas com aquela certeza tranquila de que não é errado precisar de descanso e paz  para acomodar melhor com as nossas mais loucas paixões.

Como assar um bolo gringo 2

Posted on junho 08, 2012 by Luciana Mastrorosa
Sweet Cream Cake Mix

Sweet Cream Cake Mix: rendeu todos esses bolos e mais um!

No começo do ano, ganhei uma massa de bolo norte-americana, cheirosa e macia, daquelas misturas prontas que produzem bolos de maneira prática, bastando acrescentar ovos, manteiga e leite. Uma massa texana, Sweet Cream Cake Mix (da San Antonio River Mill Brand), que, ainda dentro da embalagem, já exibia seu aroma delicioso de creme e baunilha.

Fato é que resolvi testá-la apenas hoje, um dia frio daqueles, feriado em São Paulo, com uma gripe ameaçando me derrubar. Como se vê, demorei meses até ter coragem de assar o bolo gringo, esperando pelo momento especial. Tenho muito disso, é uma mania que me acompanha desde criança: esperar o momento “especial” para comer tal guloseima, ou preparar tal prato. Às vezes tem uma certa utilidade, como quando recebo visitas inesperadas e tenho alguma coisinha gostosa para colocar à mesa. No mais das vezes, porém, é apenas bobagem minha, que já me rendeu a perda de muito ingrediente bom por simples… esquecimento.

Mas hoje, não. Decidida a não me deixar vencer pela gripe e pelas mesquinharias da vida, resolvi assar o bolo gringo para ver no que é que daria. Primeiro, o mais importante: converter aquelas medidas estranhas – onças, libras, fahrenheit – para o nosso amado sistema métrico de todo dia. Daí que 6 onças (oz) viraram 170 g de manteiga, e 300 graus F viraram, bem, o forno mais baixo possível, já que meu fogão só permite, como temperatura mínima, 180 a 200 graus Celsius, um pouquinho acima dos 170oC pedidos na conversão.

Divertido! Em seguida, o desafio de achar a forma certa: a embalagem (um lindo saquinho de pano, com o logotipo da marca e a receitinha no verso) informava ser necessário uma forma de bolo com furo no meio, grande, untada apenas com óleo. Só tenho formas pequenas (shame on me), então tive que improvisar.

Batendo a massa, logo percebi que a intenção é que o meu Sweet Cream Cake ficasse muito, muito macio. Mas haja batedeira! A massa, cremosa e amanteigada, virou rapidamente um creme denso, espesso, gordo – manteiga para tudo o que foi lado!

Só que eu não tenho uma Kitchen Aid para me ajudar nessas horas, então… O resultado foi uma batedeira quase arriando, enquanto eu ajudava, manualmente, a empurrar a massa para as pás que giravam e giravam, esforçadas, quase inúteis.

Depois de devidamente batida, a surpresa: era MUITA massa. Muita mesmo! Usei então duas formas de pão pequenas, uma forma de cupcakes (com capacidade para 6 unidades), mais uma forma pequena de bolo, com furo no meio. E paguei para ver.

Forno baixo, todas as formas juntinhas, e a o fogo começou a fazer sua mágica: depois de alguns minutos, a casa ganhou um perfume delicioso. Creme, manteiga, açúcar, ovos, leite, baunilha… Tudo junto e misturado, aquecendo a minha cozinha tão fria.

Depois de assados, a surpresa: aquela massa pesadona e rica transformou-se em bolos macios e delicados, de crosta crocante e interior fofinho, doces na medida certa, sem exagero para nenhum dos lados. Nada de gordura sobrando, nem cheiro de ovo, nem açúcar demais. No ponto, perfeita, a massa certa para um dia como hoje.

Como é um bolo básico, deve ficar uma delícia com acompanhamentos do tipo geleias, marshmallow, ganache meio amarga, caldinha de limão… O meu deve ganhar dois dedinhos de doce de leite Lapataia, que outro amigo me trouxe como lembrança – e é divino para bolinhos assim.

Para acompanhar, um bom café feito na french press, para beber com calma junto com meu bolo gringo – aliás, texano, para mandar todos os meus preconceitos pelo ralo. E eu que achava que a América só tinha mesmo era hambúrguer, Coca-cola e algumas cervejas.

Olha a minha massa aqui!

Amigos, não se acanhem: na próxima visita ao Texas, podem trazer essa e outras misturas deliciosas para assar. E não esqueçam de mim! ;)

  • Livraria

    Pingado e Pão na Chapa

    Pingado e Pão na Chapa - Histórias e Receitas de Café da Manhã é meu primeiro livro de culinária e gastronomia. Nele, além de comentar as curiosidades sobre a primeira refeição do dia, também dou receitas saborosas para incrementar o café da manhã. Quer comprar? Vai aqui.

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