Cinema e gastronomia
O crítico de cinema Rubens Ewald Filho e a jornalista Nilu Lebert tiveram uma idéia que, imagino, deve ter sido uma delícia de realizar! Eles selecionaram 28 filmes incríveis que têm como linha mestra a comida e lançaram o livro “O Cinema vai à mesa”, com receitas apetitosas ‘pinçadas’ de cada filme. “Festa de Babette”, um clássico do gênero (e que está completando 20 anos!), é um exemplo.
Confesso: eu estava louca para que eles tivessem escolhido as “cailles en sarcophage” para dar como receita, mas fiquei contente com os blinis com caviar e creme de leite.
Fiz uma matéria para o G1 sobre o festival, se você quiser conferir, aqui vai o link.
Sabe o melhor? O tradicional restaurante La Casserole uniu o útil ao agradável e oferece um jantar temático este mês, com algumas das receitinhas deliciosas dos filmes. Você pode escolher sempre entre duas receitas para entrada, prato principal e sobremesa. Veja lá:
Acepipe
Mini almôndegas de cordeiro e canela (Filme: “Tempero da Vida”)
Entrada
Salada de figo fresco ao mel e balsâmico (Filme: “Simplesmente Martha”)
ou
Blinis com caviar e creme de leite (Filme: “A Festa de Babette”)
Prato Principal
Rosbife “en croûte” (Filme: “A época da Inocência”)
ou
Namorado ao molho de açafrão (Filme: “Sem Reservas”)
Sobremesa
Mini tortas de frutas vermelhas e chantilly (Filme: “Maria Antonieta”)
ou
Crêpes Suzette (Filme: “As Férias da minha vida”)
O restaurante oferece o menu completo de 18 a 31 de outubro. O cardápio vale R$ 95 por pessoa. Se quiser menu completo + palestra com os autores do livro, o valor sobe para R$ 115, com direito a vinhos sugeridos pelo sommelier do restaurante, Sebastião Martins (somente nos dias 18, 25 e 31, às 20h30, há essa opção incrementada!).
As reservas devem ser feitas até a véspera do jantar. Quem tiver interesse pode comprar o livro, que estará à venda no restaurante.
Apaixonada por cinema e comida, não posso pensar em programa melhor para uma noite feliz de outubro.
E eu adoro outubros!
***
La Casserole
Largo do Arouche, 346 – Centro – São Paulo/SP
Fone: (11) 3331-6283


Literatura Versus Cinema
O cinema vem fazendo um grande mal à literatura. Pergunto a alguém se ele já leu “O Processo” de Kafka e ele responde: “Não li, mas assisti o filme”. Pergunto a outro se ele já leu “O Pequeno Príncipe” e lá vem a terrível resposta: “Não li, mas vi o filme”. Ninguém mais parece gostar de ler e a maioria das pessoas hoje tem um conhecimento de almanaque, que é aquele conhecimento mínimo, diluído, incapaz de segurar dez minutos de diálogo interessante.
Um filme, por mais fiel que tente ser ao conteúdo de um livro, jamais terá o mesmo valor, a mesma qualidade, afinal, literatura e cinema utilizam linguagens e estruturas diferentes. O filme dilui o livro.
Nessa época de relativismo cultural qualquer pessoa pode se passar por culta conhecendo as coisas apenas na superfície, sem nunca se aprofundar em nada. Basta alguém aprender cinco ou seis chavões sobre livros, filmes e músicas para se passar por culto entre pessoas que também só conhecem chavões. Se alguém acha que entrou no universo de Cervantes apenas porque assistiu “Dom Quixote” ou que sabe algo de Homero porque viu “Tróia”, fará papel de bobo se conversar com alguém que se deteu durante vários dias (às vezes meses) lendo as obras de Cervantes ou Homero, e não apenas ficou no superficial de uma película que normalmente não ultrapassa duas horas de duração.
Dizem os críticos que apenas um filme em toda a história do cinema conseguiu ser melhor do que o livro que o inspirou. O filme que conseguiu tal feito foi “Psicose”, de Alfred Hitchcock. Mestre Hitchcock fez de um livro comum, banal, um ótimo filme.
Num único dia é possível assistir “Anna Karenina”, “Morte em Veneza”, “A Revolução dos Bichos”, “Oliver Twist” e “Lolita”. Se alguém assiste a todos esses filmes num Domingo, na Segunda-feira ele já pode posar de “culto”, de alguém que conhece Tolstoi, Thomas Mann, George Orwell, Charles Dickens e Vladimir Nabokov, quando na verdade apenas assistiu filmes. Os cincos livros publicados acima tomariam vários dias de leitura, mas no cinema bastaria uma tarde inteira e mais um pedaço da noite para que todos fossem vistos.
E como se não bastasse ainda há aqueles casos em que livros são lançados quase que juntamente com os filmes, como aquelas obras horripilantes (literalmente) de Stephen King. King fatura mais dinheiro vendendo os direitos autorais de suas obras para o cinema do que com a venda delas nas livrarias.
Da próxima vez que eu perguntar a alguém se ele leu “Lavoura Arcaica” (verbo ler, não assistir) espero que ele responda “sim” ou “não”. Quando eu perguntar se ele assistiu (verbo assistir, não ler) “Lavoura Arcaica”, então ele poderá dizer também “sim” ou “não”. Sem essa de “não li, mas assisti”.
Pedantes adoram assistir filmes baseados em livros. Dessa forma eles sabem um pouquinho de cada autor, de cada livro, sem se aprofundar em nenhum deles. Por mais que isso irrite os cinéfilos, ainda há quem diga que cinema nem arte é. Literatura está acima, muito acima, mas muito acima mesmo, do cinema.
Wandecy Medeiros: filmes e livros