Vinho do Porto e uma taça de cristal
Agora eu vou encher minha taça com o restante do Vinho do Porto e esperar a noite chegar, numa segunda-feira que parece de feriado, mas não é; que antecede um feriado que eu não vou ter.
Antes do alho, da cebola, da fritura, do azeite borbulhando seu “tchiiii” na frigideira novinha de aço inoxidável, antes de lavar folha por folha de alface lisa, verde, clara, macia, antes da colher de manteiga fritando o bife, antes das fatias do alho descascado, antes de tudo isso eu vou pegar a minha taça de vinho do Porto, sentar pertinho da janela e olhar a noite chegar.
Esta taça que agora está ocupada com um vinho doce e delicioso tem uma história curiosa. Num longínquo 31 de dezembro, decidi reunir os amigos mais queridos para uma festa de réveillon em casa. É preciso mencionar que, naquela época, eu morava sozinha num sobrado de dois dormitórios amplos e confortáveis, tinha um quintal e uma cozinha do tamanho do meu quarto de casal atual.
Então, resolvi chamar os mais queridos para comemorar a virada do ano, todo mundo jornalista, todo mundo em São Paulo, tomo mundo de plantão, e o cardápio estava resolvido: salmão, saladas, arroz, legumes, lentilhas, espumante e espumante e espumante.
Eu tinha uma casa grande, mas não tinha taças suficientes para tanto espumante, e tantas pessoas, de modo que pedi que cada um levasse sua própria taça. E eu também não tinha taças de champanhe! Corri ao mercado decidida a comprar um par de taças de cristal, as mais bonitas que encontrasse.
E por que um par? Porque eu estava solteira, mas apaixonada, e queria que, quando ele – o objeto da minha paixão – chegasse, tivesse uma taça nova e linda e alta e de cristal para brindar comigo a chegada de mais um ano, repleto de alegrias, e coisas boas, e tudo o mais.
Mas.
Ele chegou tarde, mal-humorado, e ficou dez minutos. Partiu meu coração no mesmo número de pedaços que uma das taças se quebrou, alguns meses depois, circunstancialmente. Quando ela se estilhaçou na pia, ou na mesa (nem lembro mais!), meu coração sentiu que estava curado.
Eu não me enganei em comprar um par de taças, porém. Uma delas se quebrou, mas a outra enfeita hoje o armário da minha pequenina e linda cozinha, e faz companhia para meus vinhos do Porto enquanto espero o meu marido chegar.
O ano novo, aquele, levou embora uma possibilidade de amor e me trouxe, vejam só, o meu Amor.
E por que eu falei tudo isso? Porque eu gosto de vinho do Porto, de taças de cristal, e de preparar o jantar todos os dias, por puro prazer, enquanto olho a vida lá fora acontecendo também.
Por pura nostalgia de feriado. E felicidade. Muita.


Este é o seu melhor post ou eu tô ficando louca?
Que bom que gostou
beijos!