Cozinhar é quase como amar
Desde que decidi me dedicar intensivamente a tudo o que envolve comidas, bebidas, cheiros e delícias da cozinha, muita gente me pergunta, às vezes com admiração, outras sem entender: “mas você gosta tanto assim de cozinhar?”.
Pois bem, eu gosto. Mas não é só do ato de cozinhar, em si. Eu gosto de comer, de beber, de inventar pratos, de conversar na cozinha, de mexer a panela enquanto dou umas bebericadas numa taça de vinho gelado.
Eu gosto de cozinhas grandes e pequenas. Nas grandes eu boto uma mesa para escolher o feijão e deixar um bolo quentinho descansando para ser servido, com punhados de amigos sempre em volta. Nas pequenas, eu ponho uma cadeirinha para a alma solidária que gosta de conversar com a cozinheira. Eu adoro as almas solidárias que conversam comigo enquanto eu corto cenouras, descasco batatas e preparo o jantar.
Gosto do pano colorido amarrado na cabeça, dos vapores subindo da panela em direção às janelas minhas e alheias. Às vezes sobe um cheirinho bom de comida do apartamento ao lado, e só isso já me conforta num dia atribulado. Pela noção de lar, de companhia.
Comprei um livro da famosa MFK Fischer esses dias, “Como cozinhar um lobo”. Ela fala, de um jeito brando, mas ironicamente delicioso, de como sobreviver decentemente em tempos de escassez. Escassez de comida (era tempo de guerra), mas também escassez de amor, de sentimentos.
Em determinado momento, ela conta que, durante a guerra, as bebidas alcoólicas tornam-se muito caras e, não raro, de qualidade duvidosa. Dessa forma, a melhor maneira de não torrar os parcos recursos à toa é tomar um drinque com alguém com quem você mais gosta de beber. Não pode ser uma pessoa qualquer: para partilhar a bebida e o pão em momentos difíceis, é preciso gostar realmente da companhia da pessoa. Diz a senhora MFK Fischer:
“Um dos melhores antídotos, se algo tão agradável pode ser chamado de forma tão condenatória, é decidir qual a pessoa com quem você mais gosta de beber e ver se consegue fazer arranjos para tomar um trago antes do jantar com ela ou ele… Sozinhos. Sozinhos não conota necessariamente de modo impudico, lascivo ou mesmo amoroso, pois se você gosta de uma pessoa o bastante para beber apenas com ela, ela será do tipo que terá trabalhado o dia inteiro e ficará tão contente quanto você de sentar-se e sorver um pouco de relaxamento rápido de um copo e depois comer, absorvendo imortalidade e satisfação. Ele será, se possível, seu marido ou seu verdadeiro amor, e você encontrará nessa súbita calma e quietude algo que pareceu às vezes muito distante de vocês ultimamente.”
Cozinhar, para mim, é isso: a possibilidade de união com as pessoas que mais amo neste mundo, e com todas as que amarei um dia. Porque o amor, sabe-se, às vezes é só uma questão de tempo e possibilidade. Assim como cozinhar.
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Para ler:
“Como cozinhar um lobo”
MFK Fischer


Simplesmente perfeito.
Bjs
Obrigada, querido
bjs!