Receitas, culinária e gastronomia, por Luciana Mastrorosa

Guloseima


Meu fondue do passado *

Posted on maio 11, 2008 by Luciana Mastrorosa

Como em toda família, às vezes tínhamos dias ruins e dias bons. Éramos em quatro: meu pai, minha mãe, meu irmão, e eu. Não sei porque, mas sempre que pensava em família, pensava nessa ordem. Acho que é por causa das idades. Quem nasceu primeiro, vinha na frente.

E a comida sempre foi o fio condutor e uma das principais diversões da minha família. Não por acaso, a maior parte dos integrantes sempre teve um sobrepeso, mais ou menos discreto. Eu também tive, às vezes ainda tenho, mas agora, casada, sem filhos, me preocupo mais com a aparência.

Naquela época, os finais de semana “bons” sempre tinham alguma surpresa, alguma novidade gastronômica. Minha mãe testava uma nova receita, ou meu pai fazia uma incursão ao mercado conosco, em busca de novos sabores.

Um patê diferente, um queijo novo, frutas estranhas. Claro, era um mercado de bairro, não havia ainda o conceito de supermercados gigantes e sortidos. Também não havia importados disponíveis de maneira tão fácil, de modo que uma novidade era sempre uma novidade.

Num sábado desses, de frio intenso, acordamos inspirados, meu irmão e eu. Novidadeiros, queríamos comer fondue de queijo. Minha mãe tinha um livro de receitas com uma foto linda de fondue de queijo borbulhante, mas aqueles nomes, aqueles queijos, aquelas bebidas, era tudo muito estranho para nós, acostumados aos portentosos macarrões e carnes assadas dos dias felizes.

Mas minha mãe é muito, muito prática, e pensou ter visto fondues de caixinha no mercado. Além de tudo, era mais barato do que comprar emental e gruyère, os queijos de nome estranho para nós.

A fondue de caixinha, tímida, pedia coisas inusitadas: vinho branco na receita? Uau! Alho cru esfregado na panela? Nossa! E… kirsch? A sabichona aqui tinha lido no livrinho de receitas da mãe: “é uma bebida de cereja”. Mas não é maraschino, alguém pergunta? Bicho estranho esse kirsch, estranhas cerejas também.

Compramos a caixinha de fondue, um vinho branco simples, minha mãe decidiu ignorar a noz-moscada e o kirsch. Quanto ao alho na panela… Naquela época – pecado! – eu e meu irmão ainda não tínhamos descoberto os sabores apetitosos do alho, de modo que mamãe preferiu ignorar o item também, em nome da felicidade dos rebentos chatos.

Fomos para casa felizes, aproveitando o frio, minha mãe morrendo de medo do “excesso” de vinho branco na receita, quando nos demos conta: e a panela de fondue? Não tinha panela dessas em casa! E agora?

Prática (eu disse…), minha mãe resolveu derreter a massa cheinha de queijos na panela comum mesmo, com um tiquinho a menos de vinho, para as crianças “não passarem mal”. E, para manter o calor, uma tigela de vidro. Simples e rápido.

“Mas a receita pede pão dormido, mãe!”, berra a caçula, atenta às regras do jogo. A mãe nem liga: “pão fresquinho é mais gostoso”.

E, no fogo, a mistura de queijo derretendo com o vinho, os pontinhos pretos da pimenta (só uma pitada), o lume baixo para não queimar. Pai, filho e filha salivando, olhos brilhantes pela receita nova. Que divertido esse negócio de fondue!

Pensando bem, isso tudo deve fazer mais de 20 anos, mas já não lembro se usamos palitos de churrasco ou garfos simples para espetar o pão e molhar no creme denso de queijos.

Só lembro do cheiro ácido do vinho, do aroma leitoso da massa, do pão estalando, prestes a ser embebido no fondue. Do frio que fazia, dos narizinhos vermelhos depois “de tanto vinho” – como acusaria minha mãe (e nós nem bebemos vinho para acompanhar…) – , da felicidade simples de provar algo novo, lúdico, bonito de se compartilhar em família.

Fazia um frio danado, mas, barriguinhas e corações aquecidos, éramos invencíveis.

***

* Escrito em homenagem à minha família querida, em especial mamãe Dalva, pelo Dia das Mães. E, claro, à minha sogra querida, também Dalva, também uma mamãe zelosa e cheia de receitas apetitosas para compartilhar. E para todas as mães fofas deste mundo, com ou sem filhos.

1 to “Meu fondue do passado *”

  1. Marília disse:

    Que delícia de lembrança!



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