Receitas, gastronomia e viagens, por Luciana Mastrorosa – jornalista especializada em gastronomia

Guloseima


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A vida se adapta 7

Posted on agosto 23, 2013 by Luciana Mastrorosa

A gente caminha, aprende coisas novas sempre e o que fica disso é que a vida se adapta. Para melhor! Boas novas da nutricionista: com carinho, olho na dieta e uso da enzima lactase, é possível viver uma vida absolutamente normal – podendo, inclusive, voltar a consumir produtos com lactose, em pequenas quantidades. É nisso que estou focando, visualizando.

Hoje, o que busco como mais importante é qualidade de vida, em todos os aspectos. Comprar marcas nas quais confio, produtos com os quais me identifico, valorizar o trabalho de quem se esforça para, todos os dias, manter as bancas e prateleiras de feiras e mercados abastecidos com ingredientes de qualidade.

O mais divertido desse meu novo processo é que, aberta uma porta da percepção, outras se abrem também. E a gente nota que o mundo é muito mais amplo, vasto e menos restritivo do que imaginamos. Filósofa, eu? De forma nenhuma. Apenas aprendendo a valorizar as coisas pequenas da vida, boas conversas, uma paisagem bonita, a preciosa saúde.

Continuo de olho nos produtos sem lactose, mas parei de ser obsessiva quanto a isso. Simplesmente, provo e vejo se me adapto ou não. Para minha surpresa, alguns produtos com adoçantes têm ótimo sabor – só não abuso, por não ser o meu costume consumir adoçantes artificiais. É o caso dos chocolates que mencionei no post anterior. Todos têm paladar caprichado, então, no meu caso, é só não abusar. Em termos de chocolate, ainda prefiro os bem amargos, com ou sem castanhas, dos mais fáceis de encontrar aos mais cheios de requintes. Com um pouco de lactase para ajudar, a vida segue tranquila – eles só contêm traços de lactose, e isso já é um facilitador natural.

E com isso a cozinha também se amplia, dá gosto cozinhar sem traumas, apenas pela experiência, pela vontade de fazer algo diferente, quem sabe que ajude a melhorar a vida de alguém depois. Estou nesta fase agora: feliz por conseguir me adaptar, pouco a pouco, a esta limitação da IL que estou torcendo (e lutando para) ser passageira. :) Enquanto isso, os testes na cozinha continuam, a casa se aquece, o coração volta a ter esperança. Que os bons ventos soprem, todos os dias, para mim e para você.

PS: com a Primavera chegando, a vontade de cozinhar fica ainda maior! Qual é o ingrediente ou o marco que te lembra esta época do ano? O meu são os ipês. Sair na rua e ver aquelas árvores magrelinhas pontilhadas de flores amarelas me deixa muito, muito feliz. Mais um ciclo começando!

Cozinhar é preciso 0

Posted on julho 23, 2013 by Luciana Mastrorosa
morangos

Morangos orgânicos entregues em casa. Foto: Luciana Mastrorosa/Guloseima

Estive de férias, um breve período em junho. Desde 2011, não tirava uns dias assim, só para mim, para colocar a casa em dia e a cabeça em ordem. Deu para chover um bocado logo nessas minhas miniférias, mas nem liguei. Passei os dias cozinhando, limpando, colocando coisas nos seus devidos lugares, pintando paredes, derrubando barreiras.

As estantes de livros nunca foram tão organizadas, o quarto nunca pareceu tão aconchegante. Mas é da cozinha que saíram as descobertas mais belas. Ontem mesmo estava pensando que não, não consigo mais me imaginar fazendo outra coisa da vida a não ser trabalhar com comida. Alimentação. Gastronomia. Sempre seguirei escrevendo, mas cozinhar é de outra ordem, é visceral, obedece ao meu segundo cérebro, às entranhas, aquece a minha alma e, de quebra, alegra os que estão ao meu redor.

E agora que estou dando aulas de cozinha é uma felicidade sem fim. No primeiro módulo, preparado especialmente para uma dupla muito querida, fizemos uma série de molhos apetitosos, e ao final, quando todos estavam degustando as receitas, me dei conta de que estava passando um pouco do meu legado para frente. Acho que isso é o mais bacana desse meu momento, a vontade louca de ensinar, de ver mais pessoas descobrindo ingredientes, aplicando técnicas simples para melhorar o sabor das coisas, cada qual descobrindo seu próprio estilo.

Enquanto escrevia este texto, um pão rústico assava na cozinha, liberando pela casa seu perfume de canela, gengibre, cravo, passas e avelãs. A massa básica é a mesma: pão sem sova. Mas tenho tomado liberdades com ela e mudado farinhas (centeio, integral) e recheios (especiarias, castanhas, raspas de cítricos).

Também estou feliz com a temporada de morangos: descobri um site que entrega frutas, verduras e legumes biodinâmicos/orgânicos e fiquei feliz ao saber que os morangos estão na safra. Comprei logo quatro caixas, prevendo tortas, geleias e acompanhamentos para meu sagrado kefir. E é nesses detalhes cotidianos que a gente percebe que está, cada vez mais, conectado com o todo, com o mundo. As revoluções acontecem lá fora e aqui dentro, mas algo, certamente, permanece o mesmo para mim: cozinhar é preciso. Viver também.

*

Não sabe fritar nem um ovo? Eu tenho a aula certa e personalizada para você. Me escreve!

*

Para comemorar a chegada da estação dos morangos, divido com vocês uma receita do meu livro Pingado e Pão na Chapa – Histórias e Receitas de Café da Manhã. Sim, eu escrevi um livro. Muita gente ainda faz cara de espanto, dizendo que não sabia e que eu preciso divulgar mais. É verdade, preciso mesmo. Meu livrito lindo está à venda na Livraria Cultura, a um clique de você. Fácil, fácil.

GELEIA DE MORANGO
1 pote pequeno

320 g de morangos frescos bem maduros e sem folhas
160 g de açúcar
160 ml de água

Modo de preparo
Lave bem os morangos, removendo as folhas, cabinhos e eventuais partes machucadas. Corte-os em pedaços e transfira-os para uma panela. Acrescente o açúcar e a água, misture e amasse os morangos com um garfo. Cozinhe a mistura em fogo alto por cerca de 10 minutos, mexendo sempre, até a mistura começar a despregar do fundo da panela, atingindo a consistência de geleia.

Dicas
- Para saber se a geleia está no ponto, coloque um pouquinho sobre um prato de porcelana. Se estiver no ponto correto, a geleia permanecerá firme, sem escorrer pelo prato.

- Se quiser aumentar a receita, use sempre a proporção uma medida de fruta para meia de açúcar. Caso prefira uma geleia mais doce, use uma proporção de um para um, por exemplo: 1 kg de morango para 1 kg de açúcar, ajustando a água de acordo com a quantidade de ingredientes utilizados.

Aula de cozinha para principiantes 0

Posted on maio 29, 2013 by Luciana Mastrorosa
oficio-escrever

Cozinhar, comer, escrever até o infinito. Foto: Luciana Mastrorosa/Guloseima

Este ano, o Guloseima completou, em abril, sete anos de existência. Sete, o número cabalístico, das notas musicais às cores do arco-íris. Sete, o número da sorte. Daí que, nessa quase uma década de vida, um monte de coisa aconteceu por aqui. Não precisava lembrar, mas eu vou lembrar, porque acho que faz parte.

O Guloseima foi minha primeira tentativa concreta de escrever sobre gastronomia, sobre os sabores que eu provava, aromas que sentia, e que precisava passar para o papel – mimetizado na tela em branco do computador. E daí para as muitas telas, em branco ou coloridas, de notebooks, smartphones, tablets e todos esses acessórios que a gente usa com tanta naturalidade que nem parece que, ainda ontem, nos aboletávamos no sofá com um telefone pesadíssimo no colo, rodando os números num disco sobre o aparelho…

Parece que foi ontem, mas já faz tempo. E, de lá para cá, desde que tudo começou aqui neste blog, escrevi para muitas revistas e sites, dei aulas de jornalismo gastronômico, publiquei um livro de receitas, cozinhei para os amigos, estudei, estudei, degustei, degustei, e sigo escrevendo. Profissionalmente e por gosto, e isso se confunde tantas vezes que basta dizer que adoro o que faço na Prazeres da Mesa, assim como adoro o que faço aqui, neste espaço que é só meu.

E foi justamente este espaço que me ajudou a derivar meu amor eterno pela gastronomia para outros patamares: comecei a dar aulas de cozinha. “Aula de cozinha para principiantes”, assim batizei meu curso, que tem o objetivo simples de ajudar as pessoas a cozinhar para viver melhor. Por que isso? Porque, para mim, cozinhar é tão natural, e me faz tão bem, que sofro ao ver amigos se digladiando com as panelas. Especialmente agora, em que tantos conhecidos e amigos estão tendo filhos e, por consequência, deparando-se com a inevitável realidade: quem vai cozinhar para os pequenos?

Não vou, aqui, entrar em debate sobre o poder do dinheiro e suas vantagens, do tipo: “ah, coloca na escolinha A, B ou C, que inclui almoço”; “ah, paga uma babá que cozinhe”, “ah, ZZzzzzz”. Isso eu deixo para cada um escolher, de acordo com sua situação econômica. O meu objetivo é outro: é fazer você, querido leitor, descobrir que é possível cozinhar receitas simples e deliciosas naquela cozinha diminuta do seu apartamento. Enquanto não tiver um espaço para acomodar vários alunos numa mesma sala, opto por dar aulas particulares na casa do aluno, em módulos, de acordo com o interesse de cada um. Mais personalizado, impossível. Pense numa aula divertida, na sua cozinha, com os seus utensílios e ingredientes, almoço pronto no final de tudo? Muito legal.

Mês passado foi minha primeira experiência e fiquei cheia de orgulho ao ver as duas primeiras alunas com brilho nos olhos de descobrir a maneira correta de segurar a faca, de observar pequenos truques para temperar a rotina, as panelas de todo dia.

Agora, entre um compromisso e outro, uma pauta e outra, dou aulas de cozinha para principiantes. Garanto que o preço é justo. Aos interessados, ficarei felicíssima de receber seus e-mails de contato em guloseimacom (arroba) gmail (ponto) com. Se preferir, entre em contato comigo nos comentários do blog ou na nossa fanpage no Facebook: http://www.facebook.com/GuloseimaBlog

E bora lá fazer aquela sopa deliciosa de abóbora, um risotinho para estas noites frias ou esta perdição para a sobremesa: shortbread de caramelo e chocolate.

Sea change, ou a vida entre viagens 2

Posted on maio 16, 2013 by Luciana Mastrorosa
estrada-mendoza

Estrada em Mendoza, Argentina, numa incrível viagem a trabalho para conhecer vinícolas e a boa comida local. Foto: Luciana Mastrorosa/Guloseima

“(…) living out of sight of any shore does rich and powerfully strange things to humans.”
(M.F.K. Fisher, em The Gastronomical Me)

M.F.K. Fisher, autora norte-americana das mais famosas, e uma das favoritas desta casa no quesito food writing, fez reflexões muito acuradas em seus livros do quanto as viagens mexem conosco. Ela chamou a esse sentimento, e as ações que derivam dele, de “sea change” – em sua época, viagens longas, como da América para a Europa, eram feitas de navio, o que justifica o nome. Em vários capítulos de seu The Gastronomical Me, uma de suas obras mais pessoais, há diversas menções a isso. Derivando para os tempos modernos, e tendo passado a vida ultimamente entre aeroportos, me identifico com o sentimento. “Sea change”. Viajar exaure e modifica.

Especialmente, as viagens que envolvem vinhos e gastronomia. São maravilhosas, sempre. Jantares, almoços, restaurantes, vinícolas, gente de todo mundo se encontrando para comer, beber, perguntar, provar, desapegar-se das situações de sempre para colocar à prova todos os sentidos. Não é necessariamente um exagero, embora seja. Afinal, bebe-se e come-se o tempo todo, mas, inexplicavelmente, sem perder o controle – afinal, é trabalho. E, mesmo se não fosse, quem gosta de perder o controle diante de tantas coisas novas para ver, sentir, observar, tocar, cheirar? Viajar desse jeito é incrível, sim, mas promove mudanças profundas dentro da gente. Sempre que volto de uma aventura dessas, me sinto impregnada, como se meu corpo fosse uma esponja cheia de gotículas, fragmentos de gentes, de coisas, comidas, bebidas, taças, impressões trocadas, sensações.

Demoro um tempo para me sentir em casa novamente. Dentro do táxi, no caminho do aeroporto até meu diminuto apartamento, sempre se passa a mesma coisa: observo as ruas de sempre, sinto o cheiro de sempre, vejo as mesmas cores, estou lá, mas é como se não estivesse. Ao chegar em casa, a mesma sensação me invade – estou, mas ainda não. Ainda não. Édouard Levé, fotógrafo e escritor francês, em um de seus textos mais inspirados, descreveu bem essa sensação. “When I am returning from a trip, the best part is not going through the airport or getting home, but the taxi ride in between: you’re still traveling, but not really.” Aliás, recomendo a leitura do texto completo, publicado na Paris Review e disponível na íntegra neste link aqui. Só o nome já é uma delícia: “When I look at a strawberry I think of a tongue.”

Depois de alguns dias, como alguém que passa muito tempo vivendo no mar, e volta para casa ainda sentindo o universo rodar ligeiramente, essa energia estranha se dissipa, deixando espaço para que as memórias da viagem voltem e ocupem seus devidos lugares. É nesse momento que dá a saudade de conversar com as amizades recém-feitas, de cozinhar com aqueles temperos acondicionados cuidadosamente entre meias e sapatos, de abrir o vinho que lembra aquele jantar especial, com aquela visão incrível dos Andes monstruosos, de rever as fotos de momentos bobos e mágicos partilhados entre ex-estranhos. Quase amigos.

Estive recentemente em dois lugares diferentes, sempre a trabalho: Mendoza, na Argentina, e Las Vegas, nos Estados Unidos. Ambos desertos, ambos palcos de festivais gastronômicos fartos em comidas e bebidas. Detalhe: com apenas dois dias de diferença entre uma e outra viagem. Nunca senti tão profundamente o meu “sea change” quanto agora. Ainda estou impregnada de tantas sensações, palavras em outras línguas, sabores exóticos e agradáveis ao meu paladar. Tento me espremer na rotina para voltar à realidade e dar conta de todos os afazeres que acompanham essas longas viagens. Afinal, não basta viajar: é preciso escrever tudo depois. É a nossa âncora.

Para ajudar na passagem, voltei para a cozinha, onde me sinto bem. A vontade de cozinhar é um dos sinais de que o sea change está indo embora. Passei no mercado, comprei itens essenciais e fiz a coisa mais simples: caldo de frango com legumes, frango assado com mostarda e batatinhas. Reconfortante, essencial, como tem de ser – para trazer de volta aquela familiaridade dos dias, aquele aconchego delicado, quase como um abraço.

CALDO DE FRANGO CLARINHO COM LEGUMES
6 porções fartas

1 peito de frango com osso e pele
4 cenouras descascadas e cortadas em cubinhos
1 lata de milho verde – ou ainda melhor, 1 pacote de milho verde congelado
1 alho-poró inteiro, bem lavado, em rodelas
1 cebola picadinha
2 dentes de alho picadinhos
Azeite, sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto
Salsinha picada a gosto
2 folhas de louro
Gotas de azeite de merkén (merkén é uma especiaria chilena, típica dos mapuches, feita com pimenta defumada e seca, sementes de cominho e de coentro maceradas e sal)
Água quanto baste

Lave bem o peito de frango, seque e tempere com azeite de merkén e sal. Aqueça um pouco de azeite de oliva numa panela grande e doure o peito de frango inteiro, com a pele virada para baixo. Quando estiver dourada, vire-o e deixe dourar do outro lado. Cubra-o com água quente e acrescente as cenouras, a cebola, o alho-poró, o alho e as folhas de louro. Tempere com um pouco de sal e pimenta e deixe ferver. Abaixe o fogo para o mínimo e cozinhe até o frango ficar macio, escumando as impurezas que subirem. Retire-o do caldo, deixe esfriar e desfie-o – descarte a pele e os ossos. Volte a carne desfiada para o caldo, corrija o sal e a pimenta e acrescente o milho verde escorrido. Se a cenoura já estiver macia, acrescente a salsa e sirva. Fica ótimo com torradas esfregadas com alho fresco, gotas de azeite e sal marinho. Se preferir uma sopa mais magra, retire a pele antes do preparo – ou deixe o caldo esfriar e remova a gordura que subir à superfície.

FRANGO ASSADO COM MOSTARDA E BATATINHAS
4 porções fartas

4 sobrecoxas e 5 coxas de frango, com ou sem pele (usei com)
3 colheres (sopa) de mostarda de Dijon com estragão
1/2 cebola picada
6 dentes de alho inteiros, com casca
Suco de 1 limão caipira
1 quilo de batatinhas tamanho míni, com casca, partidas ao meio
3 cenouras sem casca, em tiras
3 folhas de louro
Sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto
Azeite a gosto

Tempere o frango com sal, suco de limão e pimenta. Acrescente a mostarda e deixe marinar por 30 minutos, no mínimo. Enquanto isso, prepare os legumes. Unte uma forma grande com azeite e disponha os pedaços de frango com toda a marinada. Acrescente as batatinhas, as cenouras, os dentes de alho e as folhas de louro. Polvilhe com mais sal e pimenta, 1 fio de azeite, e leve para assar em forno alto por 40 minutos, até a pele dourar. Retire do forno, regue com o suco que se formou na assadeira e cubra com papel-alumínio (ou papel-manteiga). Abaixe o fogo para médio e asse por mais 30 a 40 minutos, para cozinhar bem, regando a carne de vez em quando durante esse período. Descubra a assadeira e finalize por mais 15 minutos, ou até dourar.

Simplicidade 2

Posted on outubro 14, 2012 by Luciana Mastrorosa
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Para curar o cansaço da alma, comida simples: pão, peixe, queijo, legumes. E vinho.                Foto: Luciana Mastrorosa/Guloseima

Eu falo de comida o tempo todo, gosto de comer, escrevo sobre isso e me considero afortunada por poder passar 24 horas por dia, literalmente, me dedicando ao assunto. E o Guloseima, claro, faz parte desse espaço que eu venho construindo, passo a passo, desde que tomei a sábia decisão de trabalhar exclusivamente com gastronomia – jornalismo e literatura incluídos nesse panteão.

Mas acontece que a gente vai engatando uma coisa na outra e a correria é tão imensa que às vezes a gente esquece do essencial, da simplicidade da coisa. Eis que hoje, finalmente, faço o que gosto em termos de profissão, mas tenho estranhamente me sentido fatigada, vazia mesmo, sem nada o que dizer a respeito daquilo que mais amo: comida. É como o Héctor Abad escreveu em seu lindo Livro de receitas para mulheres tristes, publicado pela Cia das Letras: “Só os bons poetas nos curam do fastio de palavras. Só a comida simples e essencial nos cura da saturação da gula.”

Simplicidade. Quando a mente cansa dos rituais, quando o corpo pede uma pausa, meu conforto está no silêncio, na paz, no simples. Mesmo com essa consciência, me deparei ocupando os pensamentos e o coração com questionamentos do tipo “O que posso fazer hoje para me divertir? Como posso descansar a mente tão fatigada?”, num dos poucos fins de semana em que não tinha compromissos a cumprir, ninguém doente (thank God) e nada pedindo minha presença, julgamento ou decisão urgentes. Alívio pelo tempo livre, susto por não saber como ocupá-lo.

Decidi ir ao cinema, paixão das antigas. Fui cedo, mas São Paulo sempre me surpreende: sessões estavam lotadas. Com fome e absolutamente enfastiada com as multidões que caminhavam na Paulista, afluíam aos cinemas e se debatiam em filas para comer nos cafés e restaurantes, abracei a simplicidade: queria voltar para casa, e rápido, para comer a minha comida, feita por mim e para mim.

Primeiro, brigadeiros: uma caixinha com quatro unidades, nos sabores tradicional, amargo, pistache e doce de leite. Depois, mercado: salmão defumado, queijo feta, e baguete estalando de tão fresca na padaria fofa que abriu aqui do lado.

Que sensação deliciosa voltar para casa! Sacola de compras, pão debaixo do braço, meu bairro me abraçando com seus mercadinhos, as pessoas felizes nos botecos, o céu cinza que convidava a ficar no sofá.

Assim improvisei meu almoço, um sanduíche simples acompanhado de uma taça de vinho. Saladinha de alface-catalônia orgânica, limão siciliano, sal, pimenta, queijo feita, azeitonas, tomatinhos. Uma versão da sempre benvinda salada grega. No pão, um ovo poché perfeito, cozido na água com vinagre de sidra, mais azeite, salmão defumado, gotinhas de limão e a pimenta moída na hora.

À taça de vinho, seguiu-se o espresso com os brigadeiros artesanais. E uma tarde de sábado simples, um pouco introspectiva, talvez, mas com aquela certeza tranquila de que não é errado precisar de descanso e paz  para acomodar melhor com as nossas mais loucas paixões.

A um passo do Natal 0

Posted on dezembro 16, 2011 by Luciana Mastrorosa
Natal chez nous

Natal 2011: note o cogumelo psicodélico e purpurinado

A casa já está cheia de gostosuras natalinas: nozes, avelãs, amêndoas e castanhas portuguesas foram adquiridas junto com damascos, figos e ameixas secas no Mercado da Lapa, em São Paulo. É sempre uma aventura ir ao mercadão nesta época do ano, mas é inegável o prazer de encontrar produtos de época mais fresquinhos e mais baratos.

Ainda estou na dúvida sobre o que fazer nesta ceia… Este ano planejo sair um pouco do habitual, tentar um prato novo, algo que possa, talvez, transformar-se numa tradição natalina, para o dia em que eu tiver filhos e netos. Mas não sei bem por onde começar, pois não tenho sentido desejo de comer nada em particular.

O marido pediu o macarrão de nozes da avó, uma receita intrigante, adocicada. E eu não posso abrir mão dos crôstolis que minha mãe me ensinou há tanto tempo, receita que venho praticando desde que minhas mãozinhas mal conseguiam segurar a faca de pão. A arte de fazer pequenas coisinhas crocantes e doces, que vem passando de geração para geração e sempre me traz lembranças felizes.

Este ano tem sido duro, mas de um aprendizado impressionante. Perdemos membros de nossa família, sinal da passagem inevitável do tempo… Mas ganhamos a alegria de ver minha sobrinha crescendo, falando, desenvolvendo uma personalidade tão forte e bonita. Não fazia ideia de como ter crianças por perto mudam nossa perspectiva.

Natal, para mim, é isso. Uma festa com contornos religiosos, claro, mas mais do que tudo uma celebração da família. De quem a gente escolhe como família.

E por mais que eu trabalhe com gastronomia e descubra inúmeras delícias novas, quando chega esta época do ano eu só penso em peru assado, tender, pernil suculento com a carne desfiando… Salada de batatas, farofa com miúdos e uva passa, o prato enorme de frutas da época: pêssego, ameixa, uvas, cerejas, mangas. As nozes na casca me lembram meu pai, a alegria de sentar à mesa e abrir uma noz após a outra, tentando preservar as casquinhas para fazer um brinquedo, um joguinho… Sinto ainda agora o aroma desses Natais passados, outro tempo, quase outra vida.

E uma coisa puxa a outra, que puxa outra: o presépio com algodão (!), o papel-pedra amassado fazendo-se passar por montanhas áridas, o menino Jesus que sai da manjedoura e só é colocado nela à meia-noite. As luzes coloridas, o papel brilhante prateado, os presentinhos de brilho colorido.

É isso, o Natal certamente me deixa mais sentimental do que já sou. E este ano, em particular, mais do que já fui um dia.

E eu ainda não encontrei a receita certa para comemorá-lo do meu jeito, do nosso jeito, do jeito certo. Sigo em busca. 

(Mas já que eu falei em crôstoli, veja aqui a receitinha da minha mamma – pode ser servida com açúcar e canela, mel ou açúcar mascavo. Ou tudo junto.)

(E me conte qual é a sua receita de Natal favorita! É sempre bom saber :) )

Guloseima no Facebook 0

Posted on novembro 27, 2011 by Luciana Mastrorosa

Para quem adora uma novidade, agora estamos também com uma página toda própria no Facebook. É hoje que não saio da internet! :D

http://www.facebook.com/GuloseimaBlog

É só clicar, visitar e curtir. ;) E dar pitacos, claro!

beijos!

Lu

 

Doce novembro 0

Posted on novembro 27, 2011 by Luciana Mastrorosa

Dentre tantos outros meses do ano, novembro é o que eu mais gosto. O motivo principal é o mais cara-de-pau possível: novembro é o mês do meu aniversário, e sempre adorei comemorar as vitórias e conquistas de mais 12 meses. Quando eu era criança, achava um privilégio ter nascido em novembro porque, desde outubro, ganharia um presente por mês, na ordem: dia das crianças, meu aniversário e Natal. Era divertido.

Hoje, por motivos óbvios, não ganho mais presente no dia das crianças, mas meu aniversário continua sendo sagrado. Quanto mais festa, melhor – e não vou negar: adoro um presentinho! Hehehehe!

Este ano, nem fiz festa, mas tive uma surpresa muito feliz: ganhei minha primeira panela Le Creuset, linda, laranja, que agora vai cuidar com carinho das minhas Le Creuset-bebês de cerâmica, que enfeitam qualquer jantar. E quem diria que logo eu, a menina que detestava tarefas domésticas e tinha alergia à expressão “do lar” (tenho até hoje, aliás), ia chorar ao ganhar uma panela de presente de aniversário!

Fato é que eu chorei. E, convenhamos, Le Creuset não é qualquer panela: é “A” panela. É o recipiente que habita os sonhos dos cozinheiros, com suas lindas cores envolvendo o pesado ferro esmaltado que a compõe. É a panela que me traz as lembranças mais felizes do meu curso de cozinha na Wilma Kovesi, no já longínquo ano de 2008. É a panela que vou deixar de presente para meus filhos ou netos ou bisnetos ou sobrinhos – ou alguém muito querido, que saiba dar valor a ela.

Para comemorar como se deve, o primeiro prato que preparei nela foi um boeuf bourguignon, receita ligeiramente adaptada da minha amada Elizabeth David em Cozinha Regional Francesa (Cia das Letras). O prato, cozido por horas a fio, foi devorado em instantes por 4 convivas esfomeados. Quer prova melhor de que a panela funcionou?

Antes que alguém pergunte, este NÃO é um post patrocinado (nem sei se existe isso ainda, mas, enfim). É apenas o testemunho de alguém cada vez mais imerso no mundo da comida, com suas pequenas idiossincrasias e paixões inquestionáveis.

Eu (coração) Le Creuset.

*

Quer arriscar a receitinha em casa? Vamos lá:

BOEUF BOURGUIGNON

1 kg de alcatra em cubos grandes
120g de bacon em cubinhos
1 cebola grande em rodelas
1 ramo de tomilho
1 ramo de salsa
1 folha de louro
1 xícara (chá) de vinho tinto
500 ml de água (ou caldo de carne)
1 dente de alho
1 colher (sopa) de farinha de trigo
250 de cogumelos-de-Paris pequenos, inteiros e limpos
12 minicebolas, descascadas, inteiras
azeite de oliva quanto baste
sal e pimenta-do-reino a gosto

Ponha os cubos de carne num recipiente que possa ser tampado e tempere-os com sal e pimenta. Adicione o vinho, a cebola grande em rodelas, os ramos de ervas e 2 colheres (sopa) de azeite. Misture bem, tampe e deixe marinar por 3 a 6 horas – quanto mais tempo, mais temperada ficará a carne.

Após esse período, coloque 1 colher (sopa) de azeite na sua Le Creuset (hehehe) e doure o bacon. Junte as minicebolas inteiras e deixe dourar, em fogo baixo, mexendo-as de vez em quando para não grudar. Quando estiverem dourados, retire o bacon e as cebolas e reserve. Retire os cubos de carne da marinada, coe o líquido e reserve. Seque os cubos, um a um, com papel-absorvente ou um pano limpo. Frite-os na gordura que sobrou na panela (adicione mais azeite, se necessário), até ficarem dourados. Não tenha pressa: doure os cubos aos poucos, para que não soltem muita água. Depois de dourar toda a carne, polvilhe os cubos com a farinha, sacudindo a panela para que a farinha se misture à gordura.

Adicione então a marinada coada e deixe ferver por 1/2 minuto. Junte o caldo, o dente de alho inteiro (descascado) e 1 buquê de ervas (tomilho, salsa e louro), amarrados com um barbante de algodão. Tampe a panela, abaixe bem o fogo e deixe cozinhar por cerca de 2 horas, observando o cozimento de tempos em tempos. Se o líquido secar, adicione mais água ou caldo quente.

Quando a carne estiver macia, junte o toucinho, as cebolas e os cogumelos inteiros (previamente secos numa frigideira quente, para não soltarem muita água). Deixe cozinhar por mais alguns minutos, corrija o sal e a pimenta e sirva.

Como acompanhamento, fiz batatas no forno, em rodelas, apenas temperadas com sal, pimenta e tomilho, assadas junto com dentes de alho inteiros, com casca.

Dá trabalho, mas fica divino, acredite.

Como diria Julia Child, que imortalizou o boeuf bourguignon francês para a América e o mundo, “boooooon appétiiiiiit”. ;)

*

PS: claro que tirei foto da minha fofura, mas alguma coisa estranha está acontecendo com o Flickr e não consegui subir nada aqui no WordPress (algum problema com minha versão). Prometo trazer mais fotos em breve. :) A imagem que ilustra este post veio do site oficial da marca, na França: www.lecreuset.fr

É primavera 2

Posted on setembro 25, 2011 by Luciana Mastrorosa

frutas

Aqui dentro e lá fora, é primavera. Com a correria do trabalho, confesso que não me dei conta de que uma das minhas estações favoritas do ano já tinha chegado, embora ela já tivesse dado seus sinais.

Primeiro, foram as blueberries que ganhei do marido e fizeram par perfeito com o iogurte da manhã – sim, iogurte, coisa que só entra no meu café da manhã nos meses mais quentes do ano. Depois, numa visita breve ao mercado do bairro, fiquei encantada com a profusão de frutas e verduras e legumes coloridos à disposição. Fazia quanto tempo mesmo que eu não ia ao mercado?

Estamos em setembro, um mês de que gosto muito, e me ressinto de ver que o tempo passa rápido – rápido demais – atropelando minha rotina e me fazendo perceber que ando falhando comigo mesma nas coisas mais simples, como preparar um jantar em casa ou fazer uma festa para meus amigos.

Acho que também por isso a primavera é tão encantadora. Junto com os morangos, pêssegos, amoras, pitangas, aspargos, cogumelos e tantas delícias naturais, vem uma vontade nova, um desejo profundo de reorganizar, rever, refazer a rotina e transformá-la em algo mais doce e gratificante.

Cada vez vejo mais beleza na simplicidade, ao ponto de me emocionar com o aroma de framboesas maduras e com a sensação macia e sedosa que elas deixam na boca. Ninguém pode ser infeliz com framboesas, minhas queridas raspberries, vermelho-rosadas e peludinhas, à disposição. Framboesas sempre me trazem lembranças boas.

Então, naqueles momentos de desânimo em que a gente acha que não vai dar conta da própria vida, eu me lembro dessas sensações pequeninas que aquecem o coração. E fico feliz demais de ver um sabiá comendo uma pitanga na rua, na MINHA rua, como se eu estivesse em alguma cidade do interior e não nesta caótica São Paulo de todo dia. Veja como tudo é uma questão de olhar e perspectiva…

A melhor forma de aproveitar a primavera, pois, é conseguir um tempo só para você e ir passear, andar, correr, ir ao mercado, cozinhar, ver os amigos, encontrar seu amor, abraçar seu bichinho de estimação. Porque a vida da gente é curta demais para ser desperdiçada.

Feliz primavera para você também! :)

Delícias de inverno 5

Posted on junho 29, 2011 by Luciana Mastrorosa

Chá quente em noite fria, conforto imediato. Já nem peço mais desculpas aos meus leitores queridos por minhas constantes ausências, porque não adianta. Falta é falta, e o tempo que passa, perdido está. Mas adianto que logo, muito em breve, terei notícias quentinhas para vocês. Estou repensando o Guloseima e planejo coisinhas novas e bacanas. E vocês serão os primeiros a saber, prometo! :)

Há um ano e pouco, estava lançando meu primeiro livro de cozinha, o Pingado e Pão na Chapa – Histórias e Receitas de Café da Manhã (se interessou? Clique aqui para comprar!). Agora, um ano depois, a vontade que dá é a de criar mais e mais. Escrever sempre, cozinhar diariamente, não perder nunca a curiosidade infantil diante de novos sabores. Um olhar sempre renovado sobre a vida.

E agora está um frio do cão em São Paulo. O inverno chegou com tudo, madrugada teve 6 graus, agora está beirando isso novamente. Pelo menos é o que eu sinto aqui na sala de casa, com apenas uma frestinha da janela aberta. Para reconfortar o corpo e a alma, faço um bule de chá.

Aqui, vale explicar que chá é, tecnicamente, a bebida preparada com as folhas da Camellia sinensis. Porém, eu chamo (incorretamente) de chá tudo aquilo que é infusão: mates, camomila, boldo, hortelã… Sempre adorei chá, e muitas vezes cheguei a trocar o leite matinal, quando criança, por uma caneca de mate com açúcar. Aliás, “chá” mate sempre me lembrará minha mãe e meu pai. Outras pessoas tomam essa bebida, lógico, mas para mim esta é uma daquelas coisas que, na minha percepção infantil, por muito tempo pertenceu apenas à minha família. Vai entender…

Fato é que me delicio demais com o ritual de um bom chazinho: encher a chaleira, medir as folhas da erva, contar o tempo para que a infusão saia perfeita… E depois despejar o líquido perfumado na xícara, esperando que chegue logo à temperatura exata, evitando queimar a língua na pressa de beber.

Dá uma calma boa, uma sensação de pertencimento. Algo do tipo: estou em casa. É assim que me sentia antes, é assim que me sinto agora.



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