Receitas, culinária e gastronomia, por Luciana Mastrorosa

Guloseima


Archive for the ‘memória’


A um passo do Natal 0

Posted on dezembro 16, 2011 by Luciana Mastrorosa
Natal chez nous

Natal 2011: note o cogumelo psicodélico e purpurinado

A casa já está cheia de gostosuras natalinas: nozes, avelãs, amêndoas e castanhas portuguesas foram adquiridas junto com damascos, figos e ameixas secas no Mercado da Lapa, em São Paulo. É sempre uma aventura ir ao mercadão nesta época do ano, mas é inegável o prazer de encontrar produtos de época mais fresquinhos e mais baratos.

Ainda estou na dúvida sobre o que fazer nesta ceia… Este ano planejo sair um pouco do habitual, tentar um prato novo, algo que possa, talvez, transformar-se numa tradição natalina, para o dia em que eu tiver filhos e netos. Mas não sei bem por onde começar, pois não tenho sentido desejo de comer nada em particular.

O marido pediu o macarrão de nozes da avó, uma receita intrigante, adocicada. E eu não posso abrir mão dos crôstolis que minha mãe me ensinou há tanto tempo, receita que venho praticando desde que minhas mãozinhas mal conseguiam segurar a faca de pão. A arte de fazer pequenas coisinhas crocantes e doces, que vem passando de geração para geração e sempre me traz lembranças felizes.

Este ano tem sido duro, mas de um aprendizado impressionante. Perdemos membros de nossa família, sinal da passagem inevitável do tempo… Mas ganhamos a alegria de ver minha sobrinha crescendo, falando, desenvolvendo uma personalidade tão forte e bonita. Não fazia ideia de como ter crianças por perto mudam nossa perspectiva.

Natal, para mim, é isso. Uma festa com contornos religiosos, claro, mas mais do que tudo uma celebração da família. De quem a gente escolhe como família.

E por mais que eu trabalhe com gastronomia e descubra inúmeras delícias novas, quando chega esta época do ano eu só penso em peru assado, tender, pernil suculento com a carne desfiando… Salada de batatas, farofa com miúdos e uva passa, o prato enorme de frutas da época: pêssego, ameixa, uvas, cerejas, mangas. As nozes na casca me lembram meu pai, a alegria de sentar à mesa e abrir uma noz após a outra, tentando preservar as casquinhas para fazer um brinquedo, um joguinho… Sinto ainda agora o aroma desses Natais passados, outro tempo, quase outra vida.

E uma coisa puxa a outra, que puxa outra: o presépio com algodão (!), o papel-pedra amassado fazendo-se passar por montanhas áridas, o menino Jesus que sai da manjedoura e só é colocado nela à meia-noite. As luzes coloridas, o papel brilhante prateado, os presentinhos de brilho colorido.

É isso, o Natal certamente me deixa mais sentimental do que já sou. E este ano, em particular, mais do que já fui um dia.

E eu ainda não encontrei a receita certa para comemorá-lo do meu jeito, do nosso jeito, do jeito certo. Sigo em busca. 

(Mas já que eu falei em crôstoli, veja aqui a receitinha da minha mamma – pode ser servida com açúcar e canela, mel ou açúcar mascavo. Ou tudo junto.)

(E me conte qual é a sua receita de Natal favorita! É sempre bom saber :) )

Guloseima no Facebook 0

Posted on novembro 27, 2011 by Luciana Mastrorosa

Para quem adora uma novidade, agora estamos também com uma página toda própria no Facebook. É hoje que não saio da internet! :D

http://www.facebook.com/GuloseimaBlog

É só clicar, visitar e curtir. ;) E dar pitacos, claro!

beijos!

Lu

 

Doce novembro 0

Posted on novembro 27, 2011 by Luciana Mastrorosa
Le Creuset tradicional: laranja

Le Creuset tradicional: laranja

Dentre tantos outros meses do ano, novembro é o que eu mais gosto. O motivo principal é o mais cara-de-pau possível: novembro é o mês do meu aniversário, e sempre adorei comemorar as vitórias e conquistas de mais 12 meses. Quando eu era criança, achava um privilégio ter nascido em novembro porque, desde outubro, ganharia um presente por mês, na ordem: dia das crianças, meu aniversário e Natal. Era divertido.

Hoje, por motivos óbvios, não ganho mais presente no dia das crianças, mas meu aniversário continua sendo sagrado. Quanto mais festa, melhor – e não vou negar: adoro um presentinho! Hehehehe!

Este ano, nem fiz festa, mas tive uma surpresa muito feliz: ganhei minha primeira panela Le Creuset, linda, laranja, que agora vai cuidar com carinho das minhas Le Creuset-bebês de cerâmica, que enfeitam qualquer jantar. E quem diria que logo eu, a menina que detestava tarefas domésticas e tinha alergia à expressão “do lar” (tenho até hoje, aliás), ia chorar ao ganhar uma panela de presente de aniversário!

Fato é que eu chorei. E, convenhamos, Le Creuset não é qualquer panela: é “A” panela. É o recipiente que habita os sonhos dos cozinheiros, com suas lindas cores envolvendo o pesado ferro esmaltado que a compõe. É a panela que me traz as lembranças mais felizes do meu curso de cozinha na Wilma Kovesi, no já longínquo ano de 2008. É a panela que vou deixar de presente para meus filhos ou netos ou bisnetos ou sobrinhos – ou alguém muito querido, que saiba dar valor a ela.

Para comemorar como se deve, o primeiro prato que preparei nela foi um boeuf bourguignon, receita ligeiramente adaptada da minha amada Elizabeth David em Cozinha Regional Francesa (Cia das Letras). O prato, cozido por horas a fio, foi devorado em instantes por 4 convivas esfomeados. Quer prova melhor de que a panela funcionou?

Antes que alguém pergunte, este NÃO é um post patrocinado (nem sei se existe isso ainda, mas, enfim). É apenas o testemunho de alguém cada vez mais imerso no mundo da comida, com suas pequenas idiossincrasias e paixões inquestionáveis.

Eu (coração) Le Creuset.

*

Quer arriscar a receitinha em casa? Vamos lá:

BOEUF BOURGUIGNON

1 kg de alcatra em cubos grandes
120g de bacon em cubinhos
1 cebola grande em rodelas
1 ramo de tomilho
1 ramo de salsa
1 folha de louro
1 xícara (chá) de vinho tinto
500 ml de água (ou caldo de carne)
1 dente de alho
1 colher (sopa) de farinha de trigo
250 de cogumelos-de-Paris pequenos, inteiros e limpos
12 minicebolas, descascadas, inteiras
azeite de oliva quanto baste
sal e pimenta-do-reino a gosto

Ponha os cubos de carne num recipiente que possa ser tampado e tempere-os com sal e pimenta. Adicione o vinho, a cebola grande em rodelas, os ramos de ervas e 2 colheres (sopa) de azeite. Misture bem, tampe e deixe marinar por 3 a 6 horas – quanto mais tempo, mais temperada ficará a carne.

Após esse período, coloque 1 colher (sopa) de azeite na sua Le Creuset (hehehe) e doure o bacon. Junte as minicebolas inteiras e deixe dourar, em fogo baixo, mexendo-as de vez em quando para não grudar. Quando estiverem dourados, retire o bacon e as cebolas e reserve. Retire os cubos de carne da marinada, coe o líquido e reserve. Seque os cubos, um a um, com papel-absorvente ou um pano limpo. Frite-os na gordura que sobrou na panela (adicione mais azeite, se necessário), até ficarem dourados. Não tenha pressa: doure os cubos aos poucos, para que não soltem muita água. Depois de dourar toda a carne, polvilhe os cubos com a farinha, sacudindo a panela para que a farinha se misture à gordura.

Adicione então a marinada coada e deixe ferver por 1/2 minuto. Junte o caldo, o dente de alho inteiro (descascado) e 1 buquê de ervas (tomilho, salsa e louro), amarrados com um barbante de algodão. Tampe a panela, abaixe bem o fogo e deixe cozinhar por cerca de 2 horas, observando o cozimento de tempos em tempos. Se o líquido secar, adicione mais água ou caldo quente.

Quando a carne estiver macia, junte o toucinho, as cebolas e os cogumelos inteiros (previamente secos numa frigideira quente, para não soltarem muita água). Deixe cozinhar por mais alguns minutos, corrija o sal e a pimenta e sirva.

Como acompanhamento, fiz batatas no forno, em rodelas, apenas temperadas com sal, pimenta e tomilho, assadas junto com dentes de alho inteiros, com casca.

Dá trabalho, mas fica divino, acredite.

Como diria Julia Child, que imortalizou o boeuf bourguignon francês para a América e o mundo, “boooooon appétiiiiiit”. ;)

*

PS: claro que tirei foto da minha fofura, mas alguma coisa estranha está acontecendo com o Flickr e não consegui subir nada aqui no WordPress (algum problema com minha versão). Prometo trazer mais fotos em breve. :) A imagem que ilustra este post veio do site oficial da marca, na França: www.lecreuset.fr

É primavera 2

Posted on setembro 25, 2011 by Luciana Mastrorosa

frutas

Aqui dentro e lá fora, é primavera. Com a correria do trabalho, confesso que não me dei conta de que uma das minhas estações favoritas do ano já tinha chegado, embora ela já tivesse dado seus sinais.

Primeiro, foram as blueberries que ganhei do marido e fizeram par perfeito com o iogurte da manhã – sim, iogurte, coisa que só entra no meu café da manhã nos meses mais quentes do ano. Depois, numa visita breve ao mercado do bairro, fiquei encantada com a profusão de frutas e verduras e legumes coloridos à disposição. Fazia quanto tempo mesmo que eu não ia ao mercado?

Estamos em setembro, um mês de que gosto muito, e me ressinto de ver que o tempo passa rápido – rápido demais – atropelando minha rotina e me fazendo perceber que ando falhando comigo mesma nas coisas mais simples, como preparar um jantar em casa ou fazer uma festa para meus amigos.

Acho que também por isso a primavera é tão encantadora. Junto com os morangos, pêssegos, amoras, pitangas, aspargos, cogumelos e tantas delícias naturais, vem uma vontade nova, um desejo profundo de reorganizar, rever, refazer a rotina e transformá-la em algo mais doce e gratificante.

Cada vez vejo mais beleza na simplicidade, ao ponto de me emocionar com o aroma de framboesas maduras e com a sensação macia e sedosa que elas deixam na boca. Ninguém pode ser infeliz com framboesas, minhas queridas raspberries, vermelho-rosadas e peludinhas, à disposição. Framboesas sempre me trazem lembranças boas.

Então, naqueles momentos de desânimo em que a gente acha que não vai dar conta da própria vida, eu me lembro dessas sensações pequeninas que aquecem o coração. E fico feliz demais de ver um sabiá comendo uma pitanga na rua, na MINHA rua, como se eu estivesse em alguma cidade do interior e não nesta caótica São Paulo de todo dia. Veja como tudo é uma questão de olhar e perspectiva…

A melhor forma de aproveitar a primavera, pois, é conseguir um tempo só para você e ir passear, andar, correr, ir ao mercado, cozinhar, ver os amigos, encontrar seu amor, abraçar seu bichinho de estimação. Porque a vida da gente é curta demais para ser desperdiçada.

Feliz primavera para você também! :)

Delícias de inverno 5

Posted on junho 29, 2011 by Luciana Mastrorosa

Chá quente em noite fria, conforto imediato. Já nem peço mais desculpas aos meus leitores queridos por minhas constantes ausências, porque não adianta. Falta é falta, e o tempo que passa, perdido está. Mas adianto que logo, muito em breve, terei notícias quentinhas para vocês. Estou repensando o Guloseima e planejo coisinhas novas e bacanas. E vocês serão os primeiros a saber, prometo! :)

Há um ano e pouco, estava lançando meu primeiro livro de cozinha, o Pingado e Pão na Chapa – Histórias e Receitas de Café da Manhã (se interessou? Clique aqui para comprar!). Agora, um ano depois, a vontade que dá é a de criar mais e mais. Escrever sempre, cozinhar diariamente, não perder nunca a curiosidade infantil diante de novos sabores. Um olhar sempre renovado sobre a vida.

E agora está um frio do cão em São Paulo. O inverno chegou com tudo, madrugada teve 6 graus, agora está beirando isso novamente. Pelo menos é o que eu sinto aqui na sala de casa, com apenas uma frestinha da janela aberta. Para reconfortar o corpo e a alma, faço um bule de chá.

Aqui, vale explicar que chá é, tecnicamente, a bebida preparada com as folhas da Camellia sinensis. Porém, eu chamo (incorretamente) de chá tudo aquilo que é infusão: mates, camomila, boldo, hortelã… Sempre adorei chá, e muitas vezes cheguei a trocar o leite matinal, quando criança, por uma caneca de mate com açúcar. Aliás, “chá” mate sempre me lembrará minha mãe e meu pai. Outras pessoas tomam essa bebida, lógico, mas para mim esta é uma daquelas coisas que, na minha percepção infantil, por muito tempo pertenceu apenas à minha família. Vai entender…

Fato é que me delicio demais com o ritual de um bom chazinho: encher a chaleira, medir as folhas da erva, contar o tempo para que a infusão saia perfeita… E depois despejar o líquido perfumado na xícara, esperando que chegue logo à temperatura exata, evitando queimar a língua na pressa de beber.

Dá uma calma boa, uma sensação de pertencimento. Algo do tipo: estou em casa. É assim que me sentia antes, é assim que me sinto agora.

Qualquer calmaria… 4

Posted on maio 26, 2011 by Luciana Mastrorosa

Noite de quarta-feira com cara de sexta, não fosse o cansaço e as olheiras que não desaparecem nem com corretivo!

Qualquer calmaria é bem-vinda, porém, depois de semanas a fio trabalhando loucamente durante o dia e escrevendo duplamente em casa, de noite, para concluir minha tese para o HEG (curso que fiz na França em outubro do ano passado). Que correria, meu Deus.

E hoje foi a primeira noite com relativa calma depois desse furacão todo (com fechamento no meio, ainda por cima. Mamãe me salve!). Com vontade de comer comidinha de casa, e com algum tempo para cozinhar após SEMANAS com o nariz enfiado nos livros, passei no mercado com a ideia inicial de fazer um risoto de aspargos e presunto cru. Já tinha o arroz, só faltava… todo o resto.

Daí que o mercado só tinha aspargos brancos, e eles estavam feios. Hum. Aqui, uma pausa: é impressão minha ou os legumes em geral têm estado lindos e há uma infinidade de cogumelos nas prateleiras? Será efeito do outono?

Pois bem. Na ausência de aspargos verdes e gordinhos, comprei miniberinjelas apetitosas e frescas, tomates bem vermelhos, um maço de coentro. A essa altura, já tinha desistido completamente do risoto, e o cansaço começou a bater mais forte. Em nome da praticidade, comprei uma bandejinha de frango assado e tudo bem. E uma garrafa de chardonnay chileno, simples de tudo, só para fazer um brinde a mim mesma – que hoje eu mereço, vou dizer…

Voltei sentindo o peso das sacolas, mas ainda assim aproveitando esse tempinho de outono tão agradável. Os dias e noites têm sido lindos, claros, com aquela luminosidade que apenas essa estação do ano e alguns dias do inverno podem trazer. Gosto muito.

Cheguei em casa, lavei as berinjelinhas, tirei os cabinhos e furei uma a uma, com um garfo. Em seguida, elas foram para o forno médio-alto por 30 minutos, tempo suficiente para amaciarem por dentro e formarem uma casquinha por fora. Enquanto isso, piquei o tomate em fatias grossas, lavei e piquei o coentro (1 punhado bem gordo) e os dois formaram a minha salada. Já mencionei que adoro coentro? Amo. Muito. Mesmo.

Com o frango aquecido, tirei as berinjelinhas do forno e as temperei, ainda quentes, com suco de limão, pimenta-do-reino moída na hora, sal e azeite extravirgem. A delícia da simplicidade.

Mas ainda faltava algo e decidi cortar um dentinho de alho, só para perfumar…

Absorta, já antevendo o sabor da minha refeição frugal, e um pouco zonza pela privação de sono por tantos dias seguidos… ZUPT! – cortei o dedo. Cortei o dedo!! Pela primeira vez, desde o meu curso de cozinha, em 2008, cortei o meu dedo com minha faca de chef. AI QUE DOR. Não um cortezinho bobo, não. Um senhor corte.

Ai que dor, ai que dor. Grito e me sinto ridícula. Corro para o banheiro lavar, e o sangue brota com uma jovialidade que me impressiona. E dói. Jesuuuuus, como dói! Começo a chorar e a me sentir mais ridícula ainda, imediatamente depois. Mas choro e choro, e o dedo dói e dói, até que eu vejo que não vou ter que ir ao hospital (não foi um corte tão profundo), e dou um suspiro aliviado. Coloco um curativo e, um pouco desolada, lavo a minha faca de chef tão amada, que me feriu pela primeira vez. : /

Qualquer calmaria, né? Bobagem… O importante é estar vivo, e atento.

Recuperada, montei o pratinho da primeira noite de relativa – eu disse relativa – calmaria em meses: tomates com muito coentro fresco picado, berinjelinhas assadas, frango assado em pedaços. Tudo temperado com limão, sal, alho picado e aquecido no azeite, mais pimenta, mais azeite. Uma comfort food imediata.

E enchi a taça de vinho e suspirei aliviada novamente: sobrevivi.

Casamento real 3

Posted on abril 30, 2011 by Luciana Mastrorosa

The Official Royal Wedding photographs

Ontem foi dia 29 de abril, dia do casamento real do príncipe William com a agora duquesa Catherine Middleton. Muita festa, muita foto na internet, muita piadinha e muita gente invejosa falando isso e aquilo. Básico para todos os casamentos, reais ou não.

Fato é que hoje me peguei curiosa com o cardápio da recepção. E, entre uma pausa e outra (Jesus, faz milênios que não escrevo aqui!) do trabalho de conclusão de curso que estou escrevendo, me deparei com o menu real, no site oficial do casamento. Fiquei surpresa, confesso, com a trivialidade de alguns itens. Ok, aspargos, ruibarbo e framboesas não são, assim, comidas do dia a dia do brasileiro. Mas são muito comuns na gastronomia europeia, e cansei de ver chefs do mundo todo fazendo pratos com coisas assim.

O que me chamou a atenção no cardápio real (o de almoço) foi a simplicidade. Entre os canapés, ovos de codorna com sal de aipo. Ovinhos de codorna, sim, aqueles que a gente vê todos os dias no restaurante por quilo, na hora do almoço. Pode parecer simplório, mas tem coisa mais inglesa? E a lista segue: salmão defumado com guacamole, cordeiro confitado, cogumelos, nozes carameladas… Mas a bebida, claro, não poderia ser outra: champanhe. E da boa. Segundo o site oficial do casório, a ideia era valorizar os ingredientes ingleses, o que achei bacana. Veja o cardápio completo aqui.

A cozinha de lá, tão duramente criticada por ser pesadona e sem graça, está se reinventando há algum tempo, com gratas surpresas – Heston Blumenthal está aí como prova disso, ou mesmo os manjados Jamie Oliver e Nigella Lawson, que ficaram famosinhos por aqui. Falo um pouco dessa nova gastronomia inglesa nesta matéria que fiz pra Menu, depois de viajar para Londres, a trabalho, ano passado. Por isso digo: cordeiro, batatas, aspargos, salmão, ovos, pato, molho hollandaise: todos são comidas comuns, do dia a dia mesmo, do britânico médio. São comidas que fazem parte das festas e da rotina. Não é interessantíssimo como o casamento real decidiu valorizar esses ingredientes? Eu acho. Podiam ter colocado foie gras e caviar do início ao fim, mas preferiram ruibarbo (ok, teve champanhe francês, mas não daria para ser diferente neste caso. Sidra inglesa não rolaria, a qualidade nem se compara).

Mas casamento é casamento, e a comida é fundamental para celebrar momentos felizes, seja da realeza, seja dos mais simplinhos, como eu e você. Nenhum demérito: somos todos humanos. E que bom que conseguimos dar vazão aos nossos sonhos e celebrar da maneira como mais gostamos, com um churrasco no quintal, ou bebendo Pol Roger, o champanhe oficial do royal wedding.

Acontece que dia 29 de abril também é dia do meu aniversário de casamento. Muito antes de Kate e William anunciarem a data do enlace, eu e José celebrávamos o nosso, na igrejinha de São José, em São Paulo. Vestido branco e buquê de rosas para a noiva, terno bonito e bem cortado para o noivo, bem-casados às toneladas (porque sou exagerada como o inferno). E tacinhas de espumante simples, porque naquela época eu não sabia que nossos espumantes brasileiros eram tão festejados e blablabá. E, claro, o orçamento não dava para champanhe de verdade.

Acontece que neste 29 de abril completamos 5 anos de casados. Embora ano passado, e o começo deste, tenham sido – estão sendo – os momentos mais difíceis e mais duros de todos os que enfrentamos. Ainda não sabemos se as memórias felizes daquele nosso dia 29 vão prevalecer entre tantas outras, mas é nisso que apostamos. Timidamente, timidamente, de novo, um recomeço.

Não foi um Pol Roger que bebemos ontem, mas um Marques de Casa Concha 2009, chileno. Não foram canapés com sauce hollandaise que provamos, mas um penne à bolonhesa que eu mesma fiz. E já que são “bodas de madeira”, como dizem, raspei um pauzinho de canela direto no molho, com o melhor ralador que tinha em mãos. Madeira em pozinho, para dentro do corpo, para trazer saúde e sorte, e para trazer a felicidade.

E alecrim também. Um raminho, bem pequeno, para afastar o mau-olhado. São essas coisinhas, esses detalhes insignificantes, que continuam fazendo a roda girar. Porque, para mim ou para a Kate, a torcida pode ser contra ou a favor. Mas estamos aí, firmonas, seguindo o caminho. E que bom que podemos levantar um brinde ao amor na mesma data, né, Kate?

*

E agora vou lá parar de procrastinar e escrever mais um capítulo pro meu trabalhinho sobre espumantes. Desejem-me sorte. Em tudo.

*

A foto que ilustra este post veio do flickr oficial do Royal Wedding. Vejam mais fotos aqui.

Delícias desde Chile 0

Posted on abril 02, 2011 by Luciana Mastrorosa

Chile!

Foi uma semana inteira viajando pelo Chile, experimentando os sabores locais, conhecendo os chefs, tentando entender as paisagens que diferem drasticamente de norte a sul do país. Mas valeu cada dia, cada noite, cada correria intensa que só as viagens de imprensa podem te oferecer.

Mais, não digo: só na próxima Menu! ;)

A comida favorita 7

Posted on março 03, 2011 by Luciana Mastrorosa

Paris

Ando numa temática comfort food atualmente, comida de alma, aquilo que nos aquece e alimenta em vários sentidos. Por isso tenho me questionado quase que diariamente sobre nossos hábitos alimentares, as escolhas que fazemos diariamente. O que é que a gente come quando está com fome?

Tenho feito umas experiências malucas na cozinha. Nada muito cozinha molecular, longe disso. Apenas tento mudar os temperos e criar inúmeras variações sobre o tema. Arroz, por exemplo. Tenho em casa, geralmente, arroz branco, arroz integral (e suas variedades), arroz negro e arroz para risoto. No dia a dia, acabo optando pelo arroz integral, mas meu paladar fica rapidamente saturado se o ingrediente for preparado todo dia da mesma forma.

Então eu mudo. Cozinho com louro, com tomilho, frito na manteiga, ou no bacon, geralmente no azeite, que prefiro. Um campeão das variações tem sido arroz integral com cúrcuma, azeite e louro. Fica perfumado, e a especiaria dá um sabor menos sem graça para o arroz.

Verduras, a mesma coisa. Descobri que gosto mais de legumes e verduras do que de frutas, pasmem. Mas detesto legume molenga, refogado com óleo, cebola e alho. Então procuro salteá-los apenas com alho e azeite, um pouco de pimenta-do-reino para finalizar, e está tudo bem. Suco de limão espremido na hora também faz milagres!

O mesmo raciocínio vale para tudo: massas, carnes, ensopados. Misturo o que estiver à mão e parece combinar, e da cozinha surgem coisas como bolo salgado de escarola com alcaparras e aliche, espaguete com abóbora, bacon e sálvia (esta foi inspirada na capa da Menu), cubinhos de carne com cheiro-verde e cominho…

Enfim, mil pensamentos misturados cozinhando junto com a panela de sopa, de arroz, mexendo o risoto.

Tudo isso para perguntar: o que é que você come? Qual a sua comida favorita? A minha, definitiva, ainda não sei.

Comfort food 0

Posted on fevereiro 26, 2011 by Luciana Mastrorosa

Eu adoro restaurantes. Na verdade, amo. Desde o momento da escolha – onde vamos jantar hoje? – até o estudo minucioso do cardápio em busca do que mais pode apetecer o estômago (a alma?) naquele dia. Amo ainda os momentos festivos ou amorosos que se passam ao redor de uma mesa de restaurante, a conquista, os olhares, o convite: quer jantar comigo hoje?

Mas, de tudo, o que eu mais gosto, em termos de cozinha, são reuniões de família. É claro que nem sempre são harmoniosas, mas não estou falando das relações, em si, mas da comida, é claro. ;)

Nem todos tiveram a sorte de nascer numa família de glutões como a minha, em que planejamos o almoço de Natal do tipo… na Páscoa. E já estamos falando sobre a refeição seguinte sem ao menos ter terminado o almoço!

Mesmo sem o exagero da minha, acredito que cada família tenha seus rituais em torno da mesa, nem que seja o restaurante favorito em que toooodo mundo se reúne aos domingos, ou para celebrar alguma data especial.

Fato é que sou apaixonada por essas receitas de alma, comfort food, como dizem os gringos. Essas receitas e pratos que dão uma saudade apertada quando a gente sente falta de um familiar querido, ou de tempos idos de criança, quando tudo era tão complicado, mas ao mesmo tempo, tudo parecia tão mais simples.

Alguns sabores se perdem com o tempo, outros são retomados pelas gerações mais jovens, que cuidam de passar adiante aquela receitinha da mãe, da avó, da tia, do tio, do pai, enfim… Sempre tem alguém “com mão boa” para cozinhar, não é assim que se falava antigamente, muito antes da gastronomia adquirir ares de coisa fina e luxuosa?

Pois é dessas receitas que vou atrás. Não só as da minha família, as de todas as famílias me interessam. Caderninhos de receitas antigos, então… São um sonho!

E se um dia eu tiver uma família para chamar de minha, com filhos e netos e coisa e tal, vou fazer questão de passar um pouco desse conhecimento pra eles. Mesmo que, nesse futuro distante, ninguém mais dê a menor bola para refeições e festas em família, mesas cheias de amigos e parentes e tudo o mais.

Vai ver que é por isso que eu admiro tanto este tipo de convite, um pouco raro nos dias de hoje: “vamos jantar juntos hoje? Onde? Na minha casa. Vou cozinhar para você.” É assim que nascem algumas famílias, afinal.



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