Cozinha e letras 5
Cozinhar é preciso, viver também é preciso. Com intensidade, de preferência, e coração aberto.
Sou tão apaixonada por literatura quanto pela cozinha, mas as paixões se alternam vez por outra, de modos que hoje, por exemplo, cozinho mais do que leio. Mas não esqueço dos meus poetas, nunca. Drummond, Quintana, Sylvia Plath, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Cecília Meireles. Damas e cavalheiros, todos sagrados para mim.
Quando os meus escritores queridos misturam comida e poesia, é a glória. Neruda fez uma “ode à alcachofra” e uma “ode à ameixa”, Isabel Allende escreveu um livro inteiro dedicado à comida afrodisíaca, com belíssimas citações de outros autores. Quintana escreveu um minipoema chamado “Gostosuras”, delicioso até no nome:
“Tua saudade tem gosto de amora.
Teu beijo tem gosto de pitanga.”
Gosto muito também da M.F.K. Fisher, que sempre escreveu lindamente sobre o ato de comer, e de cozinhar. Já citei um trecho do livro dela, Como cozinhar um lobo, aqui. Esse trecho foi retirado do capítulo “Como beber à saúde do lobo”.
Outra parte do texto que adoro é do capítulo “Como seduzir o lobo”. Sempre brinco com minhas amigas que cozinhar é um ato de amor e amizade, mas também pode ser um ato de conquista e sedução. E a regra vale, é claro, para homens e mulheres. Irresistível é a pessoa que sabe cozinhar, e o faz com maestria, só para agradar o seu mais-querido. Para mim, pelo menos, é!
Mas é um fato que cozinhar exige esforço físico e, não raro, o cozinheiro fica todo amarfanhado no processo. Não é qualquer rapaz, ou garota, que consegue enxergar beleza por trás do avental respingado do(a) chef. Por isso adoro este texto da Fisher:
“Façamos o elogio, por bem ou por mal, do lobo em forma humana ou, de outro modo, quem pode, com a cara franca e sem franzir o focinho, cortejar uma cozinheira desgrenhada? Seu focinho, franzido ou liso, não deve ter nem um pouco de juízo para ignorar os cachos dela, saturados de perfumes da frigideira. Sua assim chamada cara, franca ou torta como a de um lobo, não deve ter olhos ou ser caridosa demais, para evitar pelo menos uma olhada cruel para o seu nariz brilhoso e seus lábios mordidos e para os restos gretados da manicure da semana passada. Em outras palavras, qualquer lobo normal seria tolo se avaliasse uma cozinheira desgrenhada por sua aparência, uma vez que o próprio fato de estar desgrenhada deveria provar para ele a natureza devassa dela.”
E o mais divertido: ela ensina às cozinheiras a terem sempre um espelho na cozinha, talvez também um batom e um pó compacto, para dar aquela conferida básica no visual antes de seus convidados entrarem na cozinha. Ainda não segui o truque do espelho, mas achei prático e muito útil. E nunca falta um batonzinho sempre à mão.
Para terminar o post de cozinha e letras, deixo com vocês uma parte do poema “Devorando o mundo”, de James Tipton. Achei o original, em inglês, para quem quiser ler até o fim.
Esta versão aí de baixo foi publicada, traduzida, no livro Afrodite, da Isabel Allende. Acho muito apropriado para o tema de hoje. Cozinhar é também devoção, entrega e amor.
Devorando o mundo
“Nasci com a boca aberta…
entrando neste mundo suculento
de pêssegos e limões e sol maduro
e esta rosada e secreta carne de mulher;
este mundo onde a ceia está
no hálito do deserto sutil
nas espécies do mar distante
que flutuam no sonho tarde da noite.
Nasci em alguma parte entre
o cérebro e a romã
saboreando as texturas deliciosas
de cabelo e mãos e olhos,
nasci do cozido do coração,
do leito infinito, para caminhar
sobre esta terra infinita.
Quero alimentar-te com as flores de gelo
desta janela de inverno,
dos aromas de muitas sopas,
do perfume de velas sagradas
que por esta casa de cedro me persegue.
Quero alimentar-te com a lavanda
que se desprende de certos poemas,
e da canela de maçãs assando,
e do prazer simples que vemos
no céu quando nos apaixonamos.
Quero alimentar-te com a terra acre
onde colhi alhos,
quero alimentar-te de memórias
surgindo dos troncos de álamo
quando os parto
e da fumaça de pinhões
que se junta em torno da casa em uma noite quieta,
e dos crisântemos na porta da cozinha (…)”
