Receitas, culinária e gastronomia, por Luciana Mastrorosa

Guloseima



Um limoeiro para lembranças doces 1

Posted on março 20, 2009 by Luciana Mastrorosa

Meu apartamento não tem campainha. Como as duas cachorrinhas latem para avisar quando algo está diferente na porta, nunca me preocupei em instalar a campainha. Apartamento pequeno, com porteiro, a gente sempre sabe o que se passa…

Vai daí que acordei atrasada e lembrei que havia marcado com meu pai. A porta da sala estava trancada, de modo que as cachorras não poderiam ouvir o que se passava lá fora. Sobressaltada, levantei correndo e dei de cara com meu pai esperando atrás da porta de entrada. O porteiro não me avisou que ele já tinha chegado… Sexto sentido, eu? Imagiiiina! :P

E aí a sexta-feira, primeiro dia de outono, começou desse jeito, meio maluca, e faltando água em casa, ainda por cima. Irritada, resolvi ler meus blogs favoritos, como o Come-se, da Neide Rigo. E foi aí que eu lembrei do limoeiro da minha rua antiga.

Não conheço a Neide pessoalmente, mas gosto daquilo que ela mostra no blog. As conversas de casa e boa comida, de refeições simples e festivas com amigos, as plantas e ervas e árvores no quintal.

Puxa, como eu adoro quintais! Vi as fotos, e pensei imediatamente na casa em que nasci, no bairro da Saúde. Era pequena, mas tinha quintal. E um pequeno jardim na frente, onde minha mãe tinha uma roseira mirrada, e muito hortelã e poejo. E os vasos, diversos, espalhados pela casa toda, e até uma parreira – paixão da minha mãe – e um pé de chuchu. Eu nunca gostei de chuchu, mas o pé era bonito que só.

Na minha rua, não tinha prédios. Quer dizer, tinha só um, o único do bairro todo, bem no alto da ladeira (e era uma ladeira MUITO íngreme, acredite). Hoje tem dezenas de outros prédios por lá, mas eles não fazem parte da minha memória.

A roseira da casa vizinha, sim. O limoeiro da outra vizinha, também. O limoeiro que dá título a este post, e que me trouxe uma leve melancolia hoje.

No meio da tarde, entre um papo e outro de comadres, na rua, na porta de casa, eu arrancava uma folhinha do limoeiro para sentir seu cheiro bom de limpeza. Assim que eu descobri como identificar um pé de limão, com seus espinhos, com as folhinhas lustrosas e de cheiro bom.

Essas lembranças todas começaram a se instalar levemente em mim, e de repente me pus a sonhar com uma casa com quintal. Parece loucura, nesta cidade de São Paulo grande que só Deus, megalópole, de trânsito infernal, de chuvas pesadas que transformam os bairros em puro caos. Será que ainda existe aqui uma casa pequena, de paredes caiadas, com quintal, para mim?

Deve existir, mas tudo tem seu preço. Por enquanto, guardo este sonho bem vivo e trato de cuidar do meu tomilho e da minha cebolinha, que sobrevivem arduamente na apertada área de serviço. E da minha samambaia, e da espada-de-são-jorge, que me acompanha desde minha primeira casa.

Guerreira, ela. Eu também sou.

Cozinha pequenina 3

Posted on março 11, 2009 by Luciana Mastrorosa

Estava lendo meu amigo Monstro na Cozinha, também conhecido como Daniel, e ele estava justamente apresentando sua cozinha nova e se enveredando por novos pratos, como uma rabada de aparência deliciosa, feita já na casa nova.

Lá estava o Monstro, todo contente com sua cozinha mais espaçosa e arejada, e eu comecei a pensar em todas as cozinhas que já tive.

Comecei a cozinhar aos dez anos, e minha primeira “especialidade” era omelete. Daquelas bem simples, fininhas, nada parecidas com as omeletes úmidas e dobradas que fui aprender a fazer só muitos anos depois, no curso de chef. Naquela época, eu não gostava muito de ajudar minha mãe na cozinha (odeio lavar louça até hoje), mas ficava sempre metendo o nariz e as mãozinhas nas receitas. Gostava mesmo, era um passatempo divertido. Escolhia feijões, fazia doce de leite na panela, amassava uma massinha bem simples para fazer biscoitos…

Outra coisa que eu fazia muito não é nem uma receita, propriamente dita, mas um recheio de sanduíche. Chamamos em casa, carinhosamente, de “potchinho”, nem sei de onde diabos isso veio, mas é uma delícia. Para o potchinho, você só precisa de uns tomates bem maduros, algumas fatias de mussarela, um fio de azeite, pitadinha de sal e uma pitada generosa de orégano fresco.

E eu fazia potchinho, junto com a minha mãe, nos sábados ou domingos preguiçosos, no fim da tarde, para comer com pão francês estalando de fresquinho. Era derreter o tomate, colocar os temperinhos, misturar o queijo e… comer o mais rapidamente possível, porque potchinho bom é potchinho quente! :D

Bem, digressões à parte, eu estava falando era de cozinha. E a primeira cozinha da minha vida, na casa dos meus pais, era ligeiramente espaçosa, tinha uma pia grande, de mármore branco, uma mesa de seis lugares, de fórmica, um armário pequeno só para as coisas básicas, geladeira, fogão, tudo sempre muito simples e sem luxo. Mas eu gostava de lá, e gostava muito de ter uma janela em cima da pia. E do ladrilho vermelho e frio no chão…

Quando comecei a morar sozinha, minha primeira cozinha de apartamento era pequena, nem cabia uma mesa. Mas, novamente, havia uma janela em cima da pia, e eu gostava muito disso.

Mudei de novo, desta vez para um sobrado, e a cozinha era um sonho, de tanto espaço! Cabia uma mesa grande no meio, armários por todos os lados, o fogão e a geladeira que eu quisesse colocar lá. Mas… a casa não era minha, e eu mudei de novo…

Meu segundo apartamento era lindo, espaçoso, antigo, e tinha uma cozinha quadradinha, de azulejos fora de moda e feios, mas eu amava aquela cozinha! Cabia uma mesa pequena, redondinha, e eu realmente gostava de ficar ali, cozinhando, bebericando uma taça de vinho, enquanto os amigos ficavam por perto para ver o que eu estava fazendo. Tempos bons, aqueles. Mas ainda não era a minha cozinha de verdade porque, novamente, o apartamento era alugado…

E, de lá, vim parar aqui, na minha cozinha pequenina. Ela não tem divisão entre a área de serviço e a cozinha, e isso me entristece muito, especialmente porque tenho duas cachorrinhas, e elas fazem aquela bagunça. Desta vez, o apartamento é do meu marido, então pudemos reformar a cozinha para ficar mais aconchegante. Mas, como disse, ela é pequenina, então eu tenho de me espremer quando tem gente por lá, me ajudando.


Na minha cozinha não tem mesa, mas na sala tem! :D E sempre cabem os amigos!

Mas ela é jeitosa, a pequena. Tem uma pia nova, azulejos brancos e outros com pastilhinhas verdes, um balcãozinho embaixo da pia. Tem uma prateleira que o marido prendado colocou para mim, na parede oposta à da pia, e tem armários grudadinhos nas paredes. Eu também sou pequena, então nem tudo nesses armários consigo acessar sem a devida ajuda de uma escada, ou de um banquinho. ;) Mas esta é a minha cozinha, então tento fazer tudo o que posso para adaptá-la às minhas necessidades.

O fogão e a geladeira, tadinhos, são daqueles distantes idos de 2001, quando eu estava recomeçando a me apaixonar pelas panelas e afins, por isso já estão dizendo adeus. Mas, se tudo der certo, este ano hei de dar um novo fogão e uma nova geladeira para a minha cozinha pequena.

Afinal, foi nesse espaço diminuto que eu preparei os inesquecíveis Tournedos Rossini à minha moda, as quesadillas de camarão, a minha primeira vichyssoise, o barreado de panela de pressão… E é onde cultivo o meu tomilho, plantos as minhas ervas, alimento a minha vida.

E, claro, as portas estão sempre abertas a todos os que forem bem-vindos. :)

E você, como é sua cozinha? Conte tudo aqui para nós!

* Post originalmente publicado no Blogs Abril. Para ler os comentários antigos, clique aqui.

Intimidades 0

Posted on outubro 25, 2008 by Luciana Mastrorosa

“Sustente-me com passas, conforte-me com maçãs, porque desfaleço de amor”
(Cântico dos Cânticos)

Acho que você pode dizer que conhece bem uma pessoa quando sabe exatamente o que ela gosta de comer. A bebida favorita, o doce mais querido, as refeições inesquecíveis… Nem todo mundo se dá conta disso, mas eu reparo, observo, lembro das guloseimas favoritas das pessoas mais próximas e queridas.

Considero um ato de amor. Uma das coisas que mais gosto de fazer é preparar jantares em casa, receber os amigos em festas ruidosas. Sou do tipo que queria ter uma mesa grande e sempre farta, com as comidinhas favoritas de cada um.

Eu me preocupo com o alho e com a cebola, a mais ou a menos, a salada, o sabor do sorvete, as cores e formas, a bebida. O vinho para a sobremesa, os tipos de uvas, as safras. O champanhe e suas bolhinhas estreladas, o formato da taça, a volúpia ao oferecer o primeiro copo para o convidado mais especial da noite. Como é bom…

Bolinhos confeitados, amêndoas, pastas de nozes e massa filo, a calda cheia de especiarias e vinho doce, aniz estrelado, cardamomo, canela, cravo. Os perfumes que convidam para espiar a cozinha e a cozinheira, as mãos molhadas no avental, o sorriso ao ver que, sim, eles estão gostando, é genuíno, você acertou.

Depois, o café e o chocolate, o bombom recheado, biscoitos em formato de coração, as pequenas delicadezas que fazem a diferença, intimidades finais.

Comidas são provas de amor, insisto. Aquela frase ali de cima, do Cântico dos Cânticos, é prova de que não estou sozinha…

* Publicado originalmente no Blogs Abril. Para ver os comentários antigos, clique aqui.



↑ Top