Um limoeiro para lembranças doces 1
Meu apartamento não tem campainha. Como as duas cachorrinhas latem para avisar quando algo está diferente na porta, nunca me preocupei em instalar a campainha. Apartamento pequeno, com porteiro, a gente sempre sabe o que se passa…
Vai daí que acordei atrasada e lembrei que havia marcado com meu pai. A porta da sala estava trancada, de modo que as cachorras não poderiam ouvir o que se passava lá fora. Sobressaltada, levantei correndo e dei de cara com meu pai esperando atrás da porta de entrada. O porteiro não me avisou que ele já tinha chegado… Sexto sentido, eu? Imagiiiina!
E aí a sexta-feira, primeiro dia de outono, começou desse jeito, meio maluca, e faltando água em casa, ainda por cima. Irritada, resolvi ler meus blogs favoritos, como o Come-se, da Neide Rigo. E foi aí que eu lembrei do limoeiro da minha rua antiga.
Não conheço a Neide pessoalmente, mas gosto daquilo que ela mostra no blog. As conversas de casa e boa comida, de refeições simples e festivas com amigos, as plantas e ervas e árvores no quintal.
Puxa, como eu adoro quintais! Vi as fotos, e pensei imediatamente na casa em que nasci, no bairro da Saúde. Era pequena, mas tinha quintal. E um pequeno jardim na frente, onde minha mãe tinha uma roseira mirrada, e muito hortelã e poejo. E os vasos, diversos, espalhados pela casa toda, e até uma parreira – paixão da minha mãe – e um pé de chuchu. Eu nunca gostei de chuchu, mas o pé era bonito que só.
Na minha rua, não tinha prédios. Quer dizer, tinha só um, o único do bairro todo, bem no alto da ladeira (e era uma ladeira MUITO íngreme, acredite). Hoje tem dezenas de outros prédios por lá, mas eles não fazem parte da minha memória.
A roseira da casa vizinha, sim. O limoeiro da outra vizinha, também. O limoeiro que dá título a este post, e que me trouxe uma leve melancolia hoje.
No meio da tarde, entre um papo e outro de comadres, na rua, na porta de casa, eu arrancava uma folhinha do limoeiro para sentir seu cheiro bom de limpeza. Assim que eu descobri como identificar um pé de limão, com seus espinhos, com as folhinhas lustrosas e de cheiro bom.
Essas lembranças todas começaram a se instalar levemente em mim, e de repente me pus a sonhar com uma casa com quintal. Parece loucura, nesta cidade de São Paulo grande que só Deus, megalópole, de trânsito infernal, de chuvas pesadas que transformam os bairros em puro caos. Será que ainda existe aqui uma casa pequena, de paredes caiadas, com quintal, para mim?
Deve existir, mas tudo tem seu preço. Por enquanto, guardo este sonho bem vivo e trato de cuidar do meu tomilho e da minha cebolinha, que sobrevivem arduamente na apertada área de serviço. E da minha samambaia, e da espada-de-são-jorge, que me acompanha desde minha primeira casa.
Guerreira, ela. Eu também sou.

