Receitas, culinária e gastronomia, por Luciana Mastrorosa

Guloseima



A busca às origens 0

Posted on março 06, 2012 by Luciana Mastrorosa

Fico feliz demais quando vejo iniciativas como este prêmio Tastemakers 2012 da revista Bon Appétit, de homenagear pessoas que fazem a diferença na gastronomia – não só os chefs e autores badalados, mas o cara que faz queijo artesanal, a moça que se dedica a cultivar ervas, o amigo que tem um açougue com cortes e carnes especiais… Os produtores, grandes e pequenos, enfim.

E fico mais feliz ainda de ver que os brasileiros estão despertando para isso também. Neste fim de semana, o chef José Barattino, do Hotel Emiliano, em São Paulo, encabeçou a segunda edição de seu Market Day. Fui ao primeiro, em 2010, e neste domingo fiquei surpresa de ver como a ação cresceu, atraiu mais gente, começou a aproximar, de fato, o público dos produtores. Estavam lá desde marcas consagradas, como a deliciosa Valrhona, de chocolates megafinos (e incríveis, diga-se), até produtores menores, como a cervejaria Karavelle, de Indaiatuba (SP), e o pessoal bacana do Empório Poitara, mostrando ervas, frutas e sementes da Amazônia, ainda tão desconhecida para nós aqui do sul. Falando nisso, só a Amazônia já vale um post separado!

A ideia do chef Barattino, aliás, é justamente esta: aproximar o cliente do produtor para mostrar ao público a importância de se respeitar as estações, de fazer um trabalho benfeito, com produtos de qualidade, sem aquela loucura toda de  “ah, temos que servir morangos o ano inteiro”. Ora, não tem morango o ano inteiro! Percebe?

Trabalhando numa revista grande de gastronomia, como a Gula, estou sempre pensando em como fazer esse trabalho de aproximação também. Em especial, tenho um olhar crítico para receitas e ingredientes. Adoro quando pego um livro de receitas gringo, por exemplo. Mas fico triste quando vejo que, dentre os ingredientes, vemos uma enxurrada de opções que mais valem para a Europa do que para nós. Custava manter as receitas no original, claro, e sugerir substituições por ingredientes mais fáceis de achar por aqui, ou simplesmente mais típicos?

Ou melhor: vamos escrever mais livros sobre a nossa cozinha, que é tão absurdamente linda, rica, variada? Eu topo! o/

Também gostaria que a gente começasse a criar mais o hábito de perceber o que está ao nosso redor, valorizar as boas ações. Conhecer o comércio do bairro, pedir para saber de onde vêm os produtos, fazer compras menores e mais certeiras, desperdiçar menos.

Este é um dos meus desafios para 2012, aliás: desperdiçar menos, pouco, quase nada. Seja comida, seja meu precioso, e escasso, tempo.

E aproveitar mais o meu entorno, ocupar meu bairro, minha casa, minha vida. E se eu puder contribuir, um pouquinho que seja, com meu quinhão para a gastronomia, ficarei feliz, feliz. :) Como já estou, aliás.

Chef Barattino promete que logo tem mais Market Day, vamos aguardar!

O novo Le Jazz 2

Posted on janeiro 20, 2010 by Luciana Mastrorosa

Le Jazz Brasserie

Passei o dia ouvindo Melody Gardot cantar “Your heart is as black as night”. Passei dias ouvindo Charles Mingus e sua “Haitin fight song”, certamente para tentar abrandar o coração diante da tragédia no Haiti.

Neste primeiro mês de 2010, penso, portanto, que o jazz combinou perfeitamente, seja em suas versões mais animadas ou românticas, até as mais tristes melodias do cool jazz. Nada mais adequado, portanto, do que fazer uma visita à jovem brasserie Le Jazz, na rua dos Pinheiros, em São Paulo.

A casa é pequena, de poucas mesas, com paredes recheadas de ídolos dessa vertente musical. E a comida é boa, muito boa. A ponto de sempre – sempre – ter filas na porta em busca de um steak tartare bem temperado com fritas sequinhas e crocantes, uma salada, um sanduíche…

O sotaque francês fica evidente já no couvert: logo que conseguimos, com sucesso, sentar numa das mesinhas, o garçom nos trouxe fatias de bom pão para acompanhar uma manteiga excelente e uma jarra de água da casa. Tem coisa mais francesa que isso? Lembro da minha primeira visita a Paris, tonta de tudo, pedindo “un verre d’eau, s’il vous plaît” ao garçom que mal entendia meus primeiros balbucios em francês…

O Le Jazz já ganhou muitos pontos na minha admiração só por esse detalhe, mas a verdade é que a entrada de tutano assado com salsa e flor de sal, para “comer de colher” com uma torrada DESTE tamanho estava espetacular. O entrecôte com molho secreto da casa, rosado por dentro e bem dourado por fora, também estava impecável, assim como as fritas. Sequinhas, crocantes e macias ao mesmo tempo, como só boas batatas fritas conseguem ser. E, para ativar ainda mais a saudade da França, o garçom nos trouxe também um potinho de mostarda Dijon para acompanhar os pratos. Oui, bien sûr, je voudrais bien la moutarde, merci!

Para beber, escolhemos um malbec em meia garrafa que casou bem com as carnes vermelhas, cruas ou grelhadas. Pena que não sobrou um espacinho sequer no estômago para a sobremesa… Queria bem provar o clafoutis de cerejas ou amoras para acompanhar o café.

Mas, como o Le Jazz tem a vantagem de ser perto, pertinho, da minha casa, sem dúvida voltarei. Com Billie Holliday, Ella Fitzgerald, Cole Porter e nosso amigo Coltrane para embalar o jantar.



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